*(LITERATURA CLANDESTINA REVOLUCIONÁRIA)*MICHEL FOUCAULT LIBERTE-ME.

VC LEU MICHEL FOUCAULT,NÃO?ENTÃO O QUE VC ESTÁ ESPERANDO FILHO DA PUTA?ELE É A CHAVE DA EVOLUÇÃO DOS HUMANOS.HISTORIA DA LOUCURA,NASCIMENTO DA CLINICA,AS PALAVRAS E AS COISAS,ARQUEOLOGIA DO SABER,A ORDEM DO DISCURSO,EU PIERRE RIVIÉRE,A VERDADE E AS FORMAS JURÍDICAS,VIGIAR E PUNIR,HISTORIA DA SEXUALIDADE,EM DEFESA DA SOCIEDADE,OS ANORMAIS...EVOLUÇÃO OU MORTE!

Saturday, July 26, 2008

O primeiro pecado capital dos Impérios.Lições da História 26/07/08 por Jorge MAJFUD

No mesmo dia em que Cristóvão Colombo partiu do porto de Palos, 3 de agosto de 1492, vencia o prazo para que os judeus da Espanha abandonassem seu país. Na mente do almirante habitavam, ao menos, dois poderosos objetivos, duas verdades irrefutáveis: as riquezas materiais da Ásia e a religião perfeita da Europa. Com o primeiro, pensava financiar a reconquista de Jerusalém; com o segundo, deveria legitimar o saque. A palavra “ouro” vazou de sua pena assim como o divino e sangrento metal transbordou das barcas dos conquistadores que o seguiram.Nesse mesmo ano de 1492, em 2 de janeiro, caíra Granada, o último bastião árabe na península. 1492 também foi o ano da publicação da primeira gramática castelhana (a primeira européia em língua “vulgar”). Segundo seu autor, Antonio de Nebrija, a língua era a “companheira do império”. Imediatamente, a nova potência continuou a Reconquista com a Conquista, do outro lado do Atlântico, com os mesmos métodos e as mesmas convicções, confirmando a vocação globalizadora de todo o império. No centro do poder devia haver uma língua, uma religião e uma raça. O futuro nacionalismo espanhol construía-se, assim, em base à limpeza da memória. É certo que, oito séculos atrás, judeus e visigodos arianos haviam chamado, e depois ajudado, os muçulmanos para que substituíssem Roderico e os demais reis visigodos, que pugnaram pela mesma purificação. Mas esta não era a razão principal do desprezo, porque não era a memória o que importava, mas sim o esquecimento. Os reis católicos e os sucessivos reis divinos terminaram (ou quiseram terminar) com a outra Espanha, a Espanha mestiça, multicultural, a Espanha onde se falavam várias línguas e se praticavam vários cultos e se misturavam várias raças. A Espanha que fora o centro da cultura, das artes e das ciências, em uma Europa mergulhada no atraso, em violentas superstições e no provincianismo da Idade Média.
Progressivamente, a península foi fechando suas fronteiras aos diferentes. Mouros e judeus tiveram que abandonar seu país e emigrar à Barbária (África) ou ao resto da Europa, onde se integraram às nações periféricas que surgiam com novas inquietudes sociais, econômicas e intelectuais. Dentro das fronteiras ficaram alguns filhos ilegítimos, escravos africanos, que quase não são mencionados na história mais conhecida, mas que eram necessários para as indignas tarefas domésticas. A nova e exitosa Espanha encerrou-se em um movimento conservador (se me permitem o oxímoro). O estado e a religião uniram-se, estrategicamente, para o melhor controle de seu povo, em um processo esquizofrênico de depuração. Alguns dissidentes, como Bartolomé de las Casas tiveram que enfrentar em julgamento público aqueles que, como Ginés de Sepúlveda, argumentavam que o império tinha direito a intervir e a dominar o novo continente, porque estava escrito na Bíblia (Provérbios 11:29) que “o néscio será servo do sábio de coração”. Os outros, os submetidos, o são por sua “torpeza de entendimento e costumes desumanos e bárbaros”. O discurso do famoso e influente teólogo, sensato como todo discurso oficial, proclamava: “[os nativos] são as gentes bárbaras e desumanas, alheias à vida civil e aos costumes pacíficos, e será sempre justo e conforme ao direito natural que tais gentes submetam-se ao império do príncipe e nações mais cultas e humanas, para que, graças às suas virtudes e à prudência de suas leis, deponham a barbárie e reduzam-se à vida mais humana e ao culto da virtude”. E, em outro momento: “[deve-se] submeter pelas armas, se por outro caminho não for possível, aqueles que por condição natural devem obedecer a outros e recusar seu império”. Então não se recorria às palavras “democracia” e “liberdade” porque, até o século XIX, permaneceram na Espanha como atributos do caos humanista, da anarquia e do demônio. Mas, cada poder imperial, em cada momento da história, joga o mesmo jogo com distintas cartas. Algumas, como se vê, não tão distintas.Apesar de uma primeira reação compassiva do rei Carlos V e das Leis Novas, que proibiam a escravidão dos nativos americanos (os africanos não entravam como sujeitos de direito), o império, através de seus encomenderos*, continuou escravizando e exterminando esses povos “alheios à vida pacífica”, em nome da salvação e da humanização. Para acabar com os horríveis rituais astecas, que a cada tanto sacrificavam uma vítima inocente a seus deuses pagãos, o império torturou, violou e assassinou em massa, em nome da lei e de um Deus único, verdadeiro. Segundo o Frei de las Casas, um dos métodos de persuasão era estender os selvagens sobre uma grelha e assá-los vivos. Mas não só a tortura – física e moral – e os trabalhos forçados desolaram terras que, certa vez, foram habitadas por milhares de pessoas; também foram empregadas armas de destruição massiva, armas biológicas, mais concretamente. A gripe e a varíola dizimaram populações inteiras, de forma involuntária algumas vezes e, mediante um cálculo preciso, outras. Como os ingleses descobriram ao norte, o envio de presentes contaminados, como roupas de doentes, e o lançamento de cadáveres pestilentos tinham, algumas vezes, efeitos mais devastadores que a artilharia pesada. Agora, quem derrotou um dos maiores impérios da história, como foi o espanhol? A Espanha. Enquanto uma mentalidade conservadora, que cruzava todas as classes sociais, aferrava-se à crença de seu destino divino, de “braço armado de Deus” (segundo Menéndez Pelayo), o império afundava em seu próprio passado. Sua sociedade fraturava-se, e a brecha que separava ricos de pobres aumentava, ao mesmo tempo em que o império assegurava os recursos minerais que lhe permitiam funcionar. Os pobres aumentaram em número e os ricos aumentaram em riquezas, que acumulavam em nome de Deus e da pátria. O império devia financiar as guerras que mantinha além de suas fronteiras, e o déficit fiscal crescia até se transformar em um monstro difícil de dominar. As isenções de impostos beneficiaram principalmente as classes altas, ao extremo que, muitas vezes, nem sequer eram obrigadas a pagá-los ou eram eximidas de ir para a prisão por suas dívidas e desfalques. O estado quebrou várias vezes. Tampouco a inesgotável fonte de recursos minerais que procedia de suas colônias, beneficiárias da iluminação do Evangelho, era suficiente: o governo gastava mais do que recebia dessas terras sob intervenção, pelo que devia recorrer aos bancos italianos.Desta forma, quando muitos países de América (a hoje chamada América Latina) se independizaram, já não restava do império mais do que sua terrível fama. Frei Servando Teresa de Mier escrevia, em 1820, que se o México não havia se independizado ainda era por ignorância do povo, que não alcançava a compreensão de que o império espanhol já não era um império, mas o rincão mais pobre da Europa. Um novo império se consolidava, o britânico. Como os anteriores e como os que virão, a expansão de seu idioma e o predomínio de sua cultura será, então, um fator comum. Outro será a publicidade: a Inglaterra, em seguida, lançou mão das crônicas do Frei de las Casas para difamar o velho império em nome de uma moral superior. Moral que não impediu crimes e violações do mesmo gênero. Mas, claro, o que valem são as boas intenções: o bem, a paz, a liberdade, o progresso – e Deus, cuja onipresença se demonstra com Sua presença em todos os discursos.O racismo, a discriminação, o fechamento de fronteiras, o messianismo religioso, as guerras pela paz, os grandes déficits fiscais para financiá-las, o conservadorismo radical perderam o império. Mas, todos esses pecados resumem-se em um: a soberba, porque é esta que impede uma potência mundial de ver todos os pecados anteriores. Ou, se permite que veja, é apenas como se fossem grandes virtudes.

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