*(LITERATURA CLANDESTINA REVOLUCIONÁRIA)*MICHEL FOUCAULT LIBERTE-ME.

VC LEU MICHEL FOUCAULT,NÃO?ENTÃO O QUE VC ESTÁ ESPERANDO FILHO DA PUTA?ELE É A CHAVE DA EVOLUÇÃO DOS HUMANOS.HISTORIA DA LOUCURA,NASCIMENTO DA CLINICA,AS PALAVRAS E AS COISAS,ARQUEOLOGIA DO SABER,A ORDEM DO DISCURSO,EU PIERRE RIVIÉRE,A VERDADE E AS FORMAS JURÍDICAS,VIGIAR E PUNIR,HISTORIA DA SEXUALIDADE,EM DEFESA DA SOCIEDADE,OS ANORMAIS...EVOLUÇÃO OU MORTE!

Friday, February 15, 2008

A mídia,os intelectuais e Pierre Bourdieu 15/02/08 Jacques Bouveresse

Cada dia que passa temos mais uma oportunidade de observar o enorme vazio criado pela morte de Pierre Bourdieu e de constatar o quanto se tornou arcaico o modelo do intelectual crítico, do qual provavelmente ele terá sido o último grande representante na França. A meu ver, o que está substituindo esse modelo foi muito bem descrito por Jean-Claude Milner, quando escreveu em seu panfleto Existe-t-il une vie intellectuelle en France ? (Existe uma vida intelectual na França?): “À primeira exortação a servir, sucedeu a segunda: ‘deixem de nos ofuscar com inúmeras provas de um saber excessivo ou de uma lucidez desagradável’, acrescentaram os notáveis. Não basta servir, é preciso também se mostrar humilde. Existiram retóricos para formar os doutrinários dessa humildade do Collège de France à imprensa. Daí o intelectual de hoje, pusilânime diante dos fortes, duro diante dos fracos, ambicioso sem projeto, ignorante sob os ouropéis do pedantismo, impreciso de estilo minucioso, inexato de estilo detalhista” .Mesmo que, como acontece quase sempre nesse caso, provavelmente Milner tenha tendência a idealizar um pouco o período anterior, o que diz parece basicamente certo e corresponde à chegada ao poder de um tipo de intelectual de quem Bourdieu conhecia particularmente bem os costumes e o comportamento, e de quem ele pressentiu e descreveu o advento. Há pouco tempo, propus denominar “intelectual deferente” o tipo de intelectual que evita cuidadosamente dar a impressão de saber mais ou de ter mais consciência que outros e que não perde a oportunidade de manifestar seu respeito por todas as formas de poder, econômicas, políticas e midiáticas, pelas autoridades morais e religiosas, pelas crenças populares e até, se for o caso, pelas idéias feitas.A evolução, no período atual, constitui uma das questões sobre as quais sempre tive oportunidade de conversar com Bourdieu nos últimos anos. E é importante salientar que ele faz parte justamente daqueles que se opuseram até o fim à idéia de praticar a humildade sob a forma falaciosa que é recomendada atualmente, em outras palavras, à idéia de fazer concessões e de aceitar o acomodamento demandado em relação à competência e ao saber, com a esperança de conseguir contentar o maior número possível de pessoas. Ele jamais considerou que a tarefa do intelectual, mesmo e sobretudo a do sociólogo, pudesse ser, como se demanda cada vez mais, hoje, de se limitar a simplesmente retratar o social sob todos seus aspectos, inclusive os mais inaceitáveis, evitando o máximo possível julgá-lo e formular apreciações suscetíveis de chocar ou de ofender os atores.
Ataques virulentos:Para Bourdieu, a tarefa do sociólogo jamais consistiu, de acordo com uma expressão utilizada pelo orientador da tese de Elisabeth Teissier, em se ocupar essencialmente de “aspirar o social”, inclusive, eventualmente, no que ele pode ter de mais nauseabundo para alguém que conservou determinadas exigências morais e intelectuais, mas em adquirir um conhecimento real dos mecanismos que o governam, por meio de métodos que nada têm de natural e de imediato, um conhecimento que não só é desejável, mas indispensável, para se conseguir ter êxito em transformá-lo.Esse aspecto do problema é fundamental para se compreender alguns dos mais virulentos ataques enfrentados por Bourdieu nos últimos anos de sua vida. Ele se achava em uma posição de alguém que dá a impressão de defender uma posição cientificista e elitista contra o que se pode chamar a democracia e a igualdade em matéria de conhecimento e de crença. Este é o modelo do intelectual deferente adotado por Philippe Sollers quando, em um artigo intitulado “Pelo pluralismo midiático”, publicado no dia 18 de setembro de 1998 no Le Monde, caracteriza nossa época como “uma época de pluralidades, incertezas, caras sempre novas, surpresas, interseções, confrontos, singularidades irredutíveis”, e recomenda ao intelectual aceitar a partir de então, tratando em pé de igualdade todas as formas de contradição e de debate, qualquer que seja sua origem e seu grau de competência e seriedade, aqueles que expressam um ponto de vista diferente do seu.Alain Finkielkraut expressa de forma ainda mais clara quando sugere que, ao contrário das aparências, o que Bourdieu ataca não é o poder abusivo das mídias, mas o que se pode chamar de “incontrolabilidade democrática”. O que ele não aceita, “não é seu reinado, e sim que outras vozes se façam ouvir em pé de igualdade com a sua, não é o estreitamento do espaço público, e sim sua existência” .Engajamento na ação política:Essa é uma questão sobre a qual é particularmente necessário insistir. Desde que a mídia se tornou, aos olhos de uma parte do próprio mundo intelectual e, de qualquer maneira, certamente dos intelectuais mais midiáticos, a personificação do pluralismo democrático, de acordo com o que, na realidade, é preciso compreender o relativismo e o subjetivismo mais completo em matéria de convicção e de crença (“essa é minha opinião, essa é minha escolha etc.”), um intelectual que se dedique a criticar meios de comunicação, sobretudo se o faz de um ponto de vista que se apresenta como o do conhecimento objetivo e, o que é pior, até científico, tem todas as chances de ser acusado de se negar a participar do jogo da democracia real.Considera-se, em geral, que com a publicação de La Misère du monde, em 1993, foi dada uma guinada importante no itinerário intelectual de Bourdieu, uma vez que foi naquele momento que ele se engajou completamente na ação política e midiática. Essa maneira de apresentar as coisas é, obviamente, muito discutível, pois os escritos de Bourdieu, desde os primeiros, que estão relacionados à experiência da colonização na Argélia, até os mais recentes, sempre apresentaram o mesmo caráter altamente engajado. Mas ainda mais curiosa é a idéia, também muito difundida, que de alguma maneira Bourdieu deixou de ser um intelectual quando se tornou militante (em outras palavras, partidário). Thomas Ferenczi, em um artigo do Monde de 19 de janeiro de 2001, intitulado “Les intellectuels dans la bataille”, escreve que, nos últimos anos, Bourdieu “renunciou, em um grande número de suas intervenções, à postura de intelectual para adotar a do militante.”Uma afirmação mais que contestável e que Bourdieu certamente não teria aceitado, uma vez que ele não acreditava que uma presença mais ativa no cenário público e o tratamento de questões como, por exemplo, a da mídia em geral e da televisão, em particular, suscetíveis de atrair mais atenção do grande público, devam custar a renúncia à atitude científica. Por mais que se possa dizer ou escrever sobre essa questão, de qualquer maneira, ele jamais pensou que a postura de militante pudesse substituir a do saber sobre as questões da ciência.
Pela subversão simbólica:Como diz Alain Accardo, “é (...) submetendo-se o mais escrupulosamente possível ao dever de objetividade ditado pela moralidade científica que o intelectual, lutando para impor simbolicamente a verdade do mundo social, se dá as melhores chances de cumprir, ao mesmo tempo, seu dever moral de solidariedade com os oprimidos para os quais ele leva armas de subversão simbólica da ordem estabelecida” 3 . Não mais nos últimos anos como no início, Bourdieu pensou que pudesse ter aí uma escolha a fazer entre a pesquisa do conhecimento objetivo e os imperativos da ação política e social. E mesmo sobre as questões que, em princípio, interessam a todo o mundo, continuou convencido de que existe um abismo entre o tratamento metódico, preciso e intelectual do sociólogo profissional e a retórica e a verborréia pelas quais os intelectuais estimados pela mídia, que lhes dá mais habitualmente a palavra, buscam a maior parte do tempo substituí-lo. Em outras palavras, ele sempre esteve convencido de que, em matéria de engajamento, em primeiro lugar há coisas a saber e a compreender, e não só posições a tomar e protestos a fazer.
Em La Misère du monde, que foi um best Eller e contribuiu para que a sociologia se tornasse conhecida por um grande número de pessoas que provavelmente a ignoravam inteiramente e não tinham a menor razão específica para por ela se interessarem, Bourdieu manifestou pública e solenemente seu engajamento ao lado de todos os excluídos de nossa sociedade, ao começar por um capítulo dedicado àqueles que personificam, hoje, no mais alto grau, o sofrimento, a humilhação e, às vezes, a indignidade social. Tratava-se, é claro, fundamentalmente dos sofrimentos do proletariado moderno, se admitirmos que ainda existe hoje um grupo, uma classe ou, de qualquer maneira, uma realidade social que merece ser chamada por esse nome, uma questão sobre a qual Bourdieu, por sua vez, não tinha a menor dúvida. Mas a miséria social não é uma simples questão de pobreza material e, obviamente, pode servir de exemplo, de muitas maneiras, no próprio mundo intelectual.
Pensar com Marx, mas contra Marx:Bourdieu foi alguém que sempre se revoltou com a miséria do mundo em todas as suas formas. De minha parte, compartilho inteiramente do ponto de vista expresso por Gérard Noiriel em um livro recente sobre o que se pode denominar a radicalidade do engajamento e a violência do estilo que, segundo ele, dela resultam: “A sociologia de Bourdieu assim como a filosofia de Foucault (...) me dão argumentos para continuar a pensar com Marx, mas contra Marx. Dois elementos me permitem fazer a transição. Em primeiro lugar, a violência do estilo de Bourdieu não deixava nada a desejar à dos marxistas. O que me seduzia muito na época, pois eu estava convencido que um discurso radical refletia necessariamente um engajamento radical. Em seguida, a sociologia de Bourdieu ilustrava, à sua maneira, a palavra de ordem leninista que eu tinha feito minha no início da década de 70: “somente a verdade é revolucionária”. Em outras palavras, para ser útil aos mais pobres, basta descobrir e dizer a verdade. Mas o dispositivo que propunha Bourdieu me parecia muito mais satisfatório que o anterior, pois ele punha a pesquisa empírica no primeiro plano em vez de fazer discursos abstratos sobre a luta de classes e a ciência da história. Além disso, enquanto o marxismo concentrou-se no poder econômico, Bourdieu forneceu instrumentos que permitiam compreender melhor a dominação, cultural e simbólica, da qual descobri a importância no momento do conflito de Longwy. Eu dispunha, a partir de então, de todo um arsenal de argumentos para apoiar a crítica aos “porta-vozes” que os homens da siderurgia tinham feito publicamente”.A constatação de Noiriel poderia, acredito, ser repetida por um grande número de intelectuais de minha geração, que tiveram com o pensamento e o trabalho de Bourdieu o mesmo tipo de relação. Sempre ouvi Bourdieu declarar (principalmente quando criticava o modo de pensamento e o comportamento dos discípulos de Louis Althusser), em um tom meio gozador meio sério, que ele era o único intelectual francês realmente marxista da época. Com isso, queria dizer que era o único a fazer o trabalho de análise e de pesquisa empírica sobre a realidade social que um marxista de hoje deveria considerar obrigatório fazer.
O conhecimento e emancipação dos oprimidos:Em que medida ele realmente acreditava que, para ser útil aos mais pobres, bastava descobrir e revelar a verdade sobre o mundo social? Sem dúvida, ele considerava isso uma condição necessária, o que é compreensível uma vez que, se um intelectual pode, enquanto tal, ser útil aos mais pobres, realmente só pode ser pelo que ele representa e pelo que é capaz de fornecer, ou seja, o conhecimento. Mas sobre a questão de saber se a condição necessária é também suficiente, Bourdieu era, creio eu, ou em todo caso se tornou, ao longo dos anos mais hesitante. É um problema que conheço relativamente bem, porque o discuti muitas vezes com ele e faz parte daqueles sobre os quais realmente nunca chegamos a um acordo.Na verdade, sempre achei um tanto otimista a idéia de que um conhecimento e uma compreensão a mais devam produzir necessariamente ou possam produzir freqüentemente um efeito de libertação sobre aquele ao qual é fornecido. É uma suposição que me parece, sobretudo no período atual, constantemente desmentida pelos fatos. As verdades da sociologia crítica podem perfeitamente ser interiorizadas de um modo mais ou menos cínico sem que isso mude muita coisa no comportamento dos interessados: continua-se a agir como antes, mas sabendo as conseqüências disso e escondendo-se atrás do fato que, do ponto de vista do próprio sociólogo, todo o mundo faz praticamente o que estava previsto e simplesmente não o pode fazer de outra maneira.Resignação e cinismo intelectual:Várias vezes Bourdieu me disse que tinha ficado profundamente chocado com o que eu escrevera, em Rationalité et cynisme, a propósito da maneira que um melhor conhecimento como aquele que devemos à sociologia e às ciências humanas, em geral, pode, na verdade, não estimular um esforço de emancipação, mas, ao contrário, levar à resignação e ao cinismo. Com toda certeza, é chocante, mas infelizmente não é muito contestável. O uso hoje feito de intelectuais que, em sua época, foram considerados os mais subversivos, como Foucault, que se tornou, ao que parece, um autor de referência para alguns pensadores do Medef (sigla de Mouvement des Entreprises de France, organização patronal), constitui uma interessante confirmação disso. Alain Accardo certamente tem razão de salientar que, em todo caso, se a visão de Bourdieu das relações sociais suscitou tanta hostilidade entre os membros do establishment “é porque ela convida aqueles que a levam a sério a se mostrar conseqüentes e a escolher seu lado”.Se a visão de Bourdieu das relações sociais suscitou tanta hostilidade entre os membros do establishment “é porque ela convida aqueles que a levam a sério a escolher seu lado”Mas pode-se temer que, infelizmente, não há nada a que o homem atual se habitue tão facilmente e que acabe lhe parecendo tão natural como a inconseqüência. Pensar de uma maneira e agir de outra infelizmente pode também se tornar um hábito e até mesmo constituir o hábito moderno por excelência.Evidentemente, pode-se também se tranqüilizar ao dizer que, por sua vez, Bourdieu se manteve o inimigo número 1, unanimemente reconhecido e abertamente revelado, de todos os defensores da ordem liberal, e que seu pensamento não se submeteu durante muito tempo a um processo de recuperação como o que assinalei. Como constata Michel Onfray, há nesse momento uma notável unanimidade, muito reveladora e, em última análise, muito tranqüilizadora, que se expressa contra ele. E explica: “A razão disso é simples e evidente: Pierre Bourdieu manifesta claramente sua luta contra o capitalismo em sua versão liberal e, conseqüentemente, herda como inimigos todos aqueles que defendem essa política, direita e esquerda juntas, ou seja, a maioria dos jornais, com exceção de poucos, uma parcela ínfima em que se pode ler verdadeiras homenagens, sem crítica alusiva nem perfídia expressa por um antigo discípulo, nem reserva emitida em entrelinhas por um panfletário hábil e diplomata. Ora, os intelectuais, pensadores, filósofos e outros atores do mundo das idéias, que expressam nitidamente sua oposição à dominação liberal e ao futuro do planeta integralmente submetido à lei do mercado, são pouco numerosos em uma época em que o dinheiro como horizonte intransponível fornece o credo em torno do qual se organizam as tomadas de posição ideológicas, nacionais e internacionais”.A crítica midiática na mídia:Apesar de tudo, quando se pergunta sobre a capacidade que os intelectuais podem ter de agir sobre o mundo e de contribuir para transformá-lo, tem-se a obrigação de salientar imediatamente que não há nada mais fácil e mais corrente do que acreditar no que dizem os mais críticos e, entre eles, os mais radicais, e ao mesmo tempo abster-se de tirar disso qualquer conseqüência. É uma questão que se coloca com uma acuidade particular a propósito das chances de sucesso que podem ser atribuídas à denúncia dos abusos de poder dos quais o sistema midiático se torna culpado.Gostaríamos de poder dar razão a Bourdieu quando ele afirma que a crítica teórica e intelectual na mídia é suscetível de levar a uma tomada de consciência e, por esse caminho, a uma modificação dos comportamentos individuais e, talvez, a uma melhora das coisas. Ele explica em seu livro sobre a televisão: “Tenho a convicção (e o fato de apresentá-las em uma cadeia de televisão o testemunha) que análises como essas talvez contribuam, em parte, para mudar as coisas. Todas as ciências têm essa pretensão. Auguste Comte dizia: ‘Ciência e daí previsão, previsão e daí ação’. As ciências sociais têm direito a essa ambição assim como as outras ciências’” . Sou, antes de mais nada, cético em relação aos resultados aos quais a sociologia crítica da mídia levou até agora. Mas a honestidade me obriga a dizer que não sei mais do que outros o que ainda pode ser eficaz contra um poder tão desmedido e tão armado e protegido como aquele em questão. Se a visão de Bourdieu das relações sociais suscitou tanta hostilidade entre os membros do establishment “é porque ela convida aqueles que a levam a sério a escolher seu lado”Sem dúvida, Michel Onfray tem razão ao responder, àqueles que formularam contra Bourdieu a crítica grotesca de ter sido “o mais midiático de todos os inimigos da mídia”, que “a crítica midiática da mídia não constitui de maneira alguma uma contradição” 8 . Ele escreve: “O que dizem os sofistas que associam crítica da televisão à obrigação de nela não se apresentar? Que a crítica do funcionamento da mídia se efetua somente no deserto? Que a alternativa consiste em se render a ela para adular as potências que convidam ou a nunca nela se apresentar a fim de preservar sua capacidade crítica? Vejo nisso um erro de raciocínio, pois existe uma outra possibilidade: render-se a elas e criticá-las, em seguida demonstrar a legitimidade de uma crítica midiática da mídia” .A eficácia dos pensadores midiáticos:Como todos os pensadores midiáticos, Onfray simplifica demasiadamente as coisas quando suspeita a priori da pureza de motivação dos inflexíveis (é claro que Bourdieu não pertence a essa categoria), ao sugerir que, se eles se recusam a aparecer na televisão, isso só pode ser porque jamais foram convidados ou porque sabem que não o seriam facilmente10 . Eu me pergunto se, infelizmente, ele não corre o risco de ser obrigado a incluir na categoria dos “cenobitas leigos instalados nos cumes mais próximos do céu das idéias em que o nada, o vazio e a ausência reinam como mestre” 11 pensadores como Jules Vuillemin pelos quais Bourdieu tinha justamente a maior admiração e pensava que estavam entre os raros a ter exatamente algo de substancial a dizer hoje. Se, no que diz respeito à televisão, ao rádio e aos jornais, a “presença crítica” é, sem dúvida, preferível a “um silêncio tão improdutivo quanto o nada” 12 , a maioria dos intelectuais que utilizam esse argumento para justificar a resposta afirmativa que dão às solicitações dos meios de comunicação me parecem se tornar muito rapidamente mais presentes do que realmente críticos – algo que, em compensação, certamente não se poderia dizer de Bourdieu. Mas não é essa a questão que quero discutir aqui.A questão não me parece ser exatamente saber se podemos ou não criticar com êxito (em particular, com um certo êxito midiático) a mídia na mídia. Sem dúvida, a crítica midiática da mídia é possível e até poderíamos dizer programada e almejada pelo próprio sistema. Mas todo o problema é saber que chances ela tem de produzir efeitos reais e se conseguiu até hoje, ou conseguirá amanhã, desestabilizar de alguma maneira o poder que ela ataca e modificar, mesmo que pouco, uma evolução que parece ter se tornado praticamente inevitável e sobre a qual ninguém, há muito tempo, parece mais ter meios de agir.A crítica esquecível:Christopher Lasch observa que “... a comunicação de massa, por sua própria natureza, reforça, a exemplo da cadeia de montagem, a concentração do poder e a estrutura hierárquica da sociedade industrial. Ela não o faz difundindo uma ideologia autoritária feita de patriotismo, de militarismo e de submissão como tantos críticos de esquerda o afirmam, mas destruindo a memória coletiva, substituindo as autoridades em que era possível confiar por um star system de um novo gênero, e tratando todas as idéias, todos os programas políticos, todas as controvérsias e todos os conflitos como sujeitos igualmente dignos de interesse do ponto de vista da atualidade, igualmente dignas de prender a atenção dispersa do espectador e, conseqüentemente, igualmente esquecíveis e sem a menor significação”.Nessas condições, não se sabe muito bem o que poderia impedir que a crítica da mídia constituísse um assunto midiático capaz, como qualquer outro, de manter por um momento a atenção dispersa do leitor ou do espectador, mas ao mesmo tempo tão esquecível e tendo todas as chances de ser tão rapidamente esquecida quanto qualquer outra. Portanto, não é necessário ser elitista, puritano ou espírito de porco para se colocar questões sérias sobre a eficácia de uma crítica da mídia formulada na mídia e sobre o comportamento dos intelectuais que se orgulham de conseguirem ser ao mesmo tempo midiáticos e críticos. Para explicar o que se passa, de maneira alguma é necessário recorrer a uma teoria do complô ou imputar uma perversidade especial aos atores relacionados, particularmente aos mais poderosos.Para Bourdieu, não há forças do mal agindo no mundo social. Simplesmente, há sistemas dos quais é preciso descrever a lógica ou, para utilizar a linguagem de Bourdieu, áreas cujo funcionamento obedece a leis que, se não são imediatamente passíveis de ser conhecidas, no entanto não têm o menor segredo.Dominação e linguagem:Do mesmo modo que Kraus, Bourdieu não criticou os jornalistas com o objetivo de desculpar os intelectuais. Gérard Noiriel escreve que “a crítica dos intelectuais é, sem dúvida, a pedra angular de toda a sociologia de Bourdieu A noção de “poder simbólico” que ele elaborou para explicar essa forma de dominação parte da idéia de que todas as relações sociais são mediatizadas pela linguagem” . Esse é um ponto de fato inteiramente crucial em Bourdieu. A desigualdade nas condições de acesso à linguagem e ao controle das formas impostas da boa e bela linguagem constitui um dos fatores de discriminação mais importantes entre os que exercem e os que são condenados a se submeter ao poder simbólico – e ao poder em geral no que ele tem necessariamente de simbólico – e uma das fontes principais da distinção entre os dominantes e os dominados.Bourdieu retomou constantemente a questão do considerável privilégio daqueles que têm os meios de atuar de uma maneira que passa fundamentalmente pela linguagem e por sua capacidade de fazer com que o outro aceite uma representação da realidade, que não tem necessidade de ser objetiva para ser crível – e no entanto não o é a maior parte do tempo –, mas que é concebida para apresentar a realidade a seu favor e servir a seus próprios fins. O poder simbólico é, sobretudo, o poder de levar os dominados a perceberem e descreverem as coisas como aqueles que ocupam posições dominantes têm interesse que eles vejam e descrevam.É o que acontece, obviamente, com intelectuais, de quem Bourdieu pensa que sua relação com a linguagem e sua possibilidade de criar o mundo do qual falam, simplesmente ao falarem sobre ele, estão na origem de uma dificuldade especial que lhes torna extremamente problemático, para não dizer impossível, o acesso à realidade propriamente dita, e mais especialmente à realidade social. Mas é o que acontece também com todos os produtores de discursos e, em particular, com políticos e jornalistas. Pode-se pensar que isso realmente acontecerá cada vez mais, uma vez que governar tornou-se hoje algo quase sinônimo de comunicar.


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