*(LITERATURA CLANDESTINA REVOLUCIONÁRIA)*MICHEL FOUCAULT LIBERTE-ME.

VC LEU MICHEL FOUCAULT,NÃO?ENTÃO O QUE VC ESTÁ ESPERANDO FILHO DA PUTA?ELE É A CHAVE DA EVOLUÇÃO DOS HUMANOS.HISTORIA DA LOUCURA,NASCIMENTO DA CLINICA,AS PALAVRAS E AS COISAS,ARQUEOLOGIA DO SABER,A ORDEM DO DISCURSO,EU PIERRE RIVIÉRE,A VERDADE E AS FORMAS JURÍDICAS,VIGIAR E PUNIR,HISTORIA DA SEXUALIDADE,EM DEFESA DA SOCIEDADE,OS ANORMAIS...EVOLUÇÃO OU MORTE!

Saturday, May 03, 2008

entrevista Jean-Pierre Faye 03/05/08

- Qual o papel e o lugar institucional de Heidegger na sociedade nazista?Jean-Pierre Faye - Há duas fases distintas. A primeira pode ser aferida por um artigo do jornal nazista ("Deutsche Bergwerk-Zeitung") de 25 de janeiro de 1934 que diz: "Heidegger é filósofo e nacional-socialista". Em 1933, ele representou esse duplo papel. Foi o primeiro filósofo de renome a conceder sua adesão plena ao Terceiro Reich, tendo sido nomeado reitor pessoalmente por Hitler. A imprensa de Freiburg não cessa de compará-los. Ambos nasceram na província e chegaram ao ápice. Mas não havia só o filósofo, havia também o nacional-socialista, o reitor que comparecia às festas dos estudantes, cantava canções nazistas e fazia discursos nos quais misturava filosofia e política. Benedetto Croce disse então que Heidegger estava se tornando o Gentile da Alemanha, comparando-o com o filósofo neo-hegeliano italiano que se tornou ministro de Mussolini. A situação muda de figura em 1934, devido a um episódio de bastidor. Heidegger apóia a proposta de supressão da última associação de estudantes que ainda não fora absorvida pelos nazistas, uma associação católica muito antiga e conservadora. O governo, em Berlim, diz que não é o momento, pois estavam negociando com o papa. Heidegger insiste. É o começo de sua desgraça, uma vez que ele aparece como alguém que não compreende os imperativos estratégicos do poder. A partir daí, cansado do trabalho administrativo e burocrático, ele se demite em abril de 1934.
- É nesse momento que ele é questionado por Ernst Krieck?Faye - Sim. De repente, Krieck, que participava da mesma "comunidade" de trabalho político-cultural que Heidegger, volta-se contra ele num artigo extremamente violento. Esse ataque é reiterado até 1940. Heidegger fica na defensiva devido à posição de Krieck que foi reitor em Heidelberg, depois em Frankfurt, tendo ocupado o lugar de polícia intelectual, com grau de coronel. O interessante é que esse artigo "Mito Germânico e Filosofia Heideggeriana" questiona Heidegger não no plano biográfico, não no terreno da militância e da disciplina nazista, mas no plano filosófico. Atacado pela sua posição acerca da questão do Ser, foi acusado de ter elaborado uma doutrina metafísica, o "niilismo-metafísico", associada por Krieck à dos "literatos judeus". - Qual foi a reação de Heidegger?Faye - Ele silenciou-se por todo um ano. No entanto, a partir do seminário de verão de 1935, rompeu com seu passado de defensor da metafísica e da ontologia. Estes termos, obsoletos desde Hegel e Marx, haviam sido reabilitados em "Ser e Tempo". Heidegger havia repensado a metafísica como a vanguarda da filosofia, como uma superação da mera visão do ente. Desde então, ao contrário, ele começa a explicar -e esse tema se torna corrente- que nós, enquanto viventes, caímos fora do ser em meio à busca do ente. A metafísica, nesse giro, é associada -enquanto expressão dessa queda- ao pensamento ocidental-judaico e ao niilismo. Essa resposta vai protegê-lo dos nazistas, já que essa concepção de queda, de declínio, casava perfeitamente com a visão de história da direita de então. Essa retração deve-se também ao fato de o poder absoluto prescindir dos intelectuais.
- De que modo isso altera a filosofia de Heidegger?Faye - Isso vai representar um papel muito importante em sua filosofia, um papel pouco estudado, que não tinha sido ainda verdadeiramente compreendido. A filosofia escolar, privilegiando somente a disciplina intelectual, despreza o movimento histórico e os acontecimentos casuais. Mas, aqui temos um acaso e um incidente que vão transformar radicalmente a filosofia de Heidegger, tornando-o mais próximo do nazismo do que na época em que ocupava um lugar político. Heidegger integra a sua filosofia numa rede típica da visão de mundo nazista e persiste nisso mesmo no pós-guerra, mas aí com o sentido oposto. O mesmo argumento que serviu para sua defesa contra Krieck, torna-se, após a guerra, curiosamente, seu meio de defesa, agora contra a acusação de ter sido nazista. Trata-se de um ponto tão ambíguo que lhe será útil duas vezes.- É isso que explica a ênfase dele na filosofia de Nietzsche?Faye - Seu grande curso sobre Nietzsche, que vai de 1935 a 45, só pode ser compreendido tendo em vista esse objetivo oculto de Heidegger que é o de tomar Nietzsche como um escudo protetor frente ao reitor Krieck. Porém, essa sua obsessão acerca da relação entre a filosofia, a metafísica e o niilismo fará com que ele dê as costas a Nietzsche, pois se este tratou do niilismo e da metafísica, não foi nunca na mesma chave. Já Heidegger conclui, dando razão a Krieck, que "a metafísica é o niilismo" e vice-versa. Quando a guerra terminou, ele se vale disso para se defender da acusação de nazismo. Primeiro, diz que esteve estudando Nietzsche porque este atacou os anti-semitas, depois esmaga Nietzsche sob a pecha de niilismo metafísico, preparando uma oposição na qual é ele quem aparece como "superador da metafísica". Heidegger desconsidera a mensagem nietzschiana da soberania filosófica, aquela do homem que, mesmo isolado e sem poder, consegue abrir uma perspectiva nova e libertadora.- Como o panorama intelectual do pós-guerra avalia Heidegger?Faye - Heidegger -como os neopositivistas de Viena- retoma o lema: "superação da metafísica", mas num sentido inesperadamente novo, o que o torna uma figura muito intrigante, principalmente para o pensamento francês. Acreditava-se então que ele era o pai do existencialismo e ele diz: "não, não tenho nada a ver com isso". Acreditava-se que era um metafísico, mas não, ele é contra a metafísica, até mesmo a superou! Em 1961, publicou suas mil páginas sobre Nietzsche, num momento em que se indagava se Nietzsche fora ou não precursor do nazismo. Mas seu Nietzsche é uma figura tão misteriosa e o texto não fala jamais do nazismo, certamente. O papel que Heidegger representou para a filosofia francesa é inacreditável. Na Alemanha, depois da guerra, ele não foi perdoado. Seu fanatismo dos anos 30 e o fato de nunca ter tomado posição contra os nazistas não foi esquecido. Proibido de dar cursos, conferências, de publicar, ele emerge, depois do silêncio, com essa nova figura, que é de fato a mesma de 1935. Aí está o serviço extraordinário que lhe presta, de uma certa forma, o reitor Krieck.
- Como se deu a sua reabilitação?Faye - Depois de suspensa a interdição dos seus textos, eles foram lidos como se fossem de um autor que no pós-45 denunciou a técnica, Hiroshima etc., e nunca em sua relação com os anos 30, quando não se tinha a menor idéia do que ia acontecer no Japão. Para ele, ao contrário, tratava-se de evocar o guerreiro de Jünger, de glorificar o encontro do homem com a guerra técnica, moderna. Para os nazistas, tudo começa com a guerra de 1914, tese que Heidegger ingenuamente aceita, junto com o Estado totalitário que promove outra guerra. A reabilitação de Heidegger decorre, por conseguinte, do desconhecimento do terreno sobre o qual ele estava pensando. Os franceses viram-no, erroneamente, como um pensador voltado para o futuro, em meio ao caos do século, sem perceber a possibilidade que a sua obra encerrava de decifrar um nó da história.- Isso significa que não se deve dissociar vida e obra, filosofia e história?Faye - Acredito que não há sentido em se falar da obra como uma escritura, um texto que se situa apenas no reino da língua, como se a linguagem não se relacionasse com uma ação. A linguagem não só se relaciona com a ação, mas também muda a ação a que se refere. A forma pela qual Heidegger nos conta essa relação faz parte de sua filosofia. A filosofia conta algo da história ao contar sua própria história. Heidegger nos faz compreender que a filosofia trabalha sua própria narração e nos esclarece sobre a forma pela qual o pensamento conta, em graus diferentes, sua história. Não se trata meramente de contar o acontecimento, mas a condensação da narração no conceito, os momentos narrativos que vão saltar da história. Isso torna Heidegger alguém que esclarece a história, mesmo que sob a forma da obscuridade. Ele nos mostra como foi possível haver então entusiastas do nazismo.- Como assim?Faye - Heidegger nos diz para entrarmos de cabeça na obscuridade e no terror da história. Para ele, não se pode recuar diante do terror desencadeado pela história. Isso se aproxima do terror da Revolução Francesa, emprega-se inclusive a mesma palavra. Mas, não há aí a luz da luta, do esforço pela defesa dos direitos. Ao contrário, esse terror visa pôr um fim nesta liberdade negativa. Isso está dito, de forma bem dura, no discurso de posse na reitoria. Trata-se, portanto, de uma posiçã o oposta à de Nietzsche que disse: "É à guerra que se precisa declarar guerra". É preciso estar atento à responsabilidade filosófica. Quem segue Heidegger de forma ingênua acaba aceitando essas formulações e seus rodeios. Não compreender sua estratégia, significa cair, submisso, na sua armadilha. Importa, portanto, ver como as ações são contadas. Uma vez que, cada narração estabelece sua própria perspectiva em relação às outras perspectivas, isso nos permite fazer a crítica, nos possibilita -ao navegar ao acaso na história- conhecer o nosso horizonte.


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