*(LITERATURA CLANDESTINA REVOLUCIONÁRIA)*MICHEL FOUCAULT LIBERTE-ME.

VC LEU MICHEL FOUCAULT,NÃO?ENTÃO O QUE VC ESTÁ ESPERANDO FILHO DA PUTA?ELE É A CHAVE DA EVOLUÇÃO DOS HUMANOS.HISTORIA DA LOUCURA,NASCIMENTO DA CLINICA,AS PALAVRAS E AS COISAS,ARQUEOLOGIA DO SABER,A ORDEM DO DISCURSO,EU PIERRE RIVIÉRE,A VERDADE E AS FORMAS JURÍDICAS,VIGIAR E PUNIR,HISTORIA DA SEXUALIDADE,EM DEFESA DA SOCIEDADE,OS ANORMAIS...EVOLUÇÃO OU MORTE!

Wednesday, March 26, 2008

entrevista Laure Adler 26/03/08

A senhora é historiadora por formação. Por que escolheu Marguerite Duras ao invés de uma personalidade histórica?
Laure Adler : Eu me interessei por Marguerite Duras porque ela foi uma mulher engajada que participou como personagem dos principais eventos da vida francesa do século que está terminando. Como historiadora, o que importou para mim nesse projeto foi tentar restituir a obra de Duras a seu tempo. Eu havia percebido que ela fora objeto de inúmeros estudos literários, mas muito raramente era situada na perspectiva histórica. Por outro lado, como me especializei na história das mulheres, tanto no século XIX quanto no XX, era interessante para mim compreender o engajamento ideológico e político de uma escritora de nossa época.
A senhora empreendeu essa tarefa quando Marguerite Duras ainda era viva. Ora, é sabido que ela era contrária a qualquer projeto biográfico. A senhora mesma diz que ela “detestava que investigassem a sua vida”. Como conseguiu que concordasse?Ela me deu carta branca depois de muito hesitar. Depois de voltar a vê-la várias vezes, consegui fazê-la compreender que o meu projeto não era de ordem literária, mas histórica. Eu lhe disse que pretendia tentar compreender a cronologia dos seres e das coisas tanto em sua obra quanto em sua vida. A partir daí, ela aceitou e tivemos múltiplas conversas.Seu livro suscitou reações muito contrastadas, algumas vezes até passionais, por parte dos que idolatram Marguerite Duras e de seus opositores ferrenhos. Como acha que ela teria reagido à leitura dessa biografia?Por definição, não tenho a menor idéia. O que sei é que a sua morte me transtornou e modificou completamente o projeto do livro. No momento do seu desaparecimento, eu havia redigido três quartos do livro, mas joguei tudo fora e recomecei, porque, por um lado a sua morte modificava minha relação com a obra, e por outro lado, a consulta a documentos que ela havia deixado tornava-se acessível e me permitia instruir a obra de outra maneira.Tenho a pretensão de acreditar ter feito esse livro num estado de liberdade que ela teria apreciado e numa ausência de traição em relação a sua vida e a sua obra que não lhe teria necessariamente agradado da primeira vez, mas que ela teria aceito. Estou mais ou menos persuadida disso.
O surpreendente é que, apesar da grande ternura que tem por Marguerite, a senhora não cai na hagiografia e, apesar das zonas nebulosas de sua personalidade evocadas no livro, a senhora não a “diaboliza”. Como foi que encontrou esse equilíbrio?Acho que um biógrafo é alguém que deve tentar tornar claro o seu assunto, exatamente como um diretor no teatro. O biógrafo tenta compreender seu modelo internamente, sem no entanto julgá-lo. Por outro lado, eu tinha uma ligação pessoal com Marguerite Duras, o que poderia ser uma deficiência, mas que tentei transformar em trunfo. Eu a conhecia e a amava. Eu sabia o quanto ela podia ser generosa, alegre, sensível, mas que fora magoada pela vida.Foi a partir dessa relação pessoal que eu, paradoxalmente, tentei tomar uma certa distância e me fazer de intérprete junto a ela do público que se perguntava sobre sua vida, embora soubesse que não chegaria à verdade, porque a verdade é frágil, intangível. Ela se desfaz sem cessar ao longo de uma pesquisa, resistindo mal à complexidade do vivenciado. Contentei-me portanto em possibilitar a leitura da complexidade da vida de Marguerite Duras e, em seguida, deixar a cada leitor a possibilidade de se fazer uma idéia da personalidade dela através de suas múltiplas contradições. Pode ser que haja inúmeras outras biografias suas. Tentei ser o mais sincera possível dentro da condição de verdade existente entre ela e eu.A senhora acha que os personagens femininos, marcados pelo amor, espreitados pela loucura e pela solidão refletem melhor que os homens o universo de Marguerite Duras?Sim, com certeza. As mulheres ocupam um lugar de destaque nos romances de Duras, cuja coerência baseia-se em três grandes figuras femininas. Há Lol V. Stein no centro (Le Ravissement de Lol V.Stein - O Arrebatamento de Lol V. Stein, 1964] a mendiga [Le Vice-Consul - O Vice-Consul 1965] e o personagem de Anne-Marie Stretter [India Song, 1974]. Sozinhas, essas três personagens de idades diferentes, saídas de diferentes classes sociais e de destinos dessemelhantes, constituem a arqueologia da obra de Duras. Mas existe muito de feminino nos personagens masculinos. São seres frágeis, muito próximos da histeria, tomados por sentimentos de melancolia e com contradições habitualmente atribuídas às mulheres.
E a mãe?A mãe encontra-se sem dúvida na base da obra de Marguerite Duras. Mas ela não é uma figura de seu imaginário. Acho que Duras tentou, através da escrita, exorcizar a ausência de amor de sua mãe, atraí-la, acercar-se dela para fazer com que compreendesse quem era. Ela quis fazer-se amar pela mãe através dos livros que escreveu, e principalmente com Uma Barragem Contra o Pacífico, que é um verdadeiro hino à mãe e a sua coragem. Nesse aspecto, a escrita foi um fracasso, porque sua mãe não se reconheceu em absoluto no livro.Mais do que qualquer outro escritor, Marguerite Duras fez de sua própria vida o principal material de sua obra. De onde vem essa necessidade de explorar a sua vida de maneira repetitiva? Ela pensava poder atingir dessa forma, através da ficção, a verdade de sua vida?Ao contrário, esse era para ela um meio de perder a verdade de sua vida. Diferentemente da maior parte das pessoas que tentavam voltar às raízes de sua verdade, Marguerite Duras utilizou a escrita para emaranhá-la o máximo possível. Foi por isso que essa biografia se tornou tão complicada para escrever e me colocou pessoalmente tanto em questão. Quanto mais Marguerite Duras avançava no tempo e se aproximava da morte, mais ela se confundia com as diferentes versões dela mesma que havia inventado através de sua escrita.A partir de que momento ela se afirmou como uma escritora maior?Muito jovem. O Amante (prêmio Goncourt em 1984) teve efetivamente um sucesso mundial e vendeu vários milhões de exemplares, mas ele chegou muito tarde em sua carreira. Com a publicação de Uma Barragem Contra o Pacífico, em 1950, ela concorreu ao prêmio Goncourt. Toda a imprensa falou desse livro, que vendeu muito bem. A partir dessa época, Duras ocupou um lugar onipresente na literatura francesa e no mundo das letras. Ela era também mulher de teatro, cineasta, grande jornalista, conhecida e reconhecida, cujo pensamento tinha um valor enorme. Como tal, ela foi uma figura essencial no mundo da criação na França contemporânea.O que as gerações futuras guardarão da obra de Duras?Recebo muitas cartas de jovens, entre dezessete e vinte e cinco anos, que ficaram perturbados com Marguerite Duras. Muitos deles descobriram seus livros por causa dessa biografia, que fez com que se falasse novamente dela. O que essa nova geração me diz em suas cartas é sempre a mesma coisa: a introspecção do amor, a impossibilidade de amar. Um pouco como fazia Edith Piaf, Marguerite Duras fala da melancolia do amor num estilo tão simples, tão puro e tão cru também, que fica-se marcado para a eternidade.

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