Fiodor Dostoiévski 25/04/07

Os dois artigos abaixo - escritos por Fiódor Dostoiévski em 1876 - foram extraídos da coletânea Diário de um Escritor (SP: Edimax, 196? - trad. de E. Jacy Monteiro). Observe que o segundo é uma justificativa do primeiro, uma vez que o escritor, sentindo-se incompreendido por boa parte de seus leitores, viu-se na obrigação de explicitar sua mais profunda convicção: sem a imortalidade da alma individual a vida humana não tem o menor sentido. (Y.V.S.) Aqui está o raciocínio de um "suicida por tédio", naturalmente materialista:



"Sim, se eu fosse flor ou vaca, talvez me sentisse feliz. Mas nada há que me faça experimentar alegria. Até mesmo a sorte mais elevada, a de amar aos seus semelhantes, é vã, visto como amanhã tudo ficará destruído, tudo voltará ao caos. "Admitindo-se mesmo por um momento que a humanidade marche para a felicidade, que os homens do futuro sejam perfeitamente ditosos, bastará saber que para obter tal resultado a Natureza teve necessidade de martirizar milhões de seres durante milhões de anos para essa idéia tornar-se insuportável e odiosa. Sem levar em conta que a natureza se apressará a mergulhar mais uma vez essa felicidade no nada. "Às vezes se me apresenta pergunta horrivelmente triste: e se o homem fosse somente objeto de uma experiência? E se não se tratasse senão de saber se é ou não capaz de adaptar-se à vida terrestre? Mas não, não há nada, não és experimentador, logo não és culpado; tudo está feito de acordo com as leis cegas da natureza e não só a natureza não me reconhece o direito de interrogá-la, e não me responde, mas não pode admitir seja o que for, nem responder. "Considerando que quando a consciência me responde em nome da Natureza nada mais faço senão emprestar as próprias idéias à consciência e à natureza; "Considerando que, nessas condições, sou ao mesmo tempo quem pergunta e responde, réu e juiz, parecendo-me esta comédia estúpida e intolerável e até mesmo humilhante; "Em minha condição incontestável de quem pergunta e responde, de juiz e réu, condeno a Natureza, que me criou insolentemente para que sofra, a desaparecer comigo. "Como não posso executar toda a minha sentença, destruindo a natureza ao mesmo tempo que a mim mesmo, suprimo-me a mim mesmo, entediado de suportar uma tirania de que ninguém tem culpa."


Afirmações Sem Provas Meu artigo é relativo à idéia mais elevada da vida humana: a necessidade, a indispensabilidade da crença na imortalidade da alma. Quis dizer que sem essa crença a vida humana se torna ininteligível e insuportável. Parece-me ter enunciado claramente a fórmula do suicídio lógico. O meu suicida não acredita na imortalidade da alma, e assim fala desde o início do artigo. A pouco e pouco, pensando que a vida não tem objetivo, arrebatado pelo ódio contra a inércia muda de tudo quanto o rodeia, chega à convicção que a vida humana é absurda. Apresenta-se-lhe tão claramente como a luz do dia que tão somente os homens semelhantes aos animais e que satisfazem a necessidades puramente animais podem consentir viver. Tais indivíduos vivem "para comer, beber e dormir", como os brutos "para fazer o próprio leito e procriar". Engolir, roncar e sujar talvez seduza o homem por muito tempo ligando-o à Terra; mas não a mim, homem superior, claro está. Não obstante, são os homens do tipo superior que sempre reinaram sobre a Terra, e nem por isso o que tinha de acontecer se deu de maneira diferente. Mas há uma palavra suprema, uma idéia suprema, sem a qual a humanidade não pode viver. Muitas vezes pronuncia-a o pobre, sem influência, até mesmo perseguido. Mas a palavra pronunciada e a idéia que exprime não morrem e mais tarde, apesar da vitória aparente das forças materiais, a idéia vive e frutifica. Disse N.P. que semelhante confissão em meu Diário constitui anacronismo ridículo, porque estamos atualmente no século das "idéias de ferro", das idéias positivas; no século da "vida sobretudo". Por isso, sem dúvida, aumentou tanto o número de suicidas entre as pessoas inteligentes e cultas. Asseguro ao digno N.P. e a todos os seus semelhantes que o ferro das idéias transforma em algo muito mais brando quando chega a hora. Quanto a mim, uma das minhas maiores preocupações quando penso em nosso futuro é precisamente o progresso da falta de fé. A falta de crença na imortalidade da alma se arraiga cada vez mais ou, para dize-lo melhor, nota-se em nossos dias absoluta indiferença para essa suprema idéia da existência humana: a imortalidade. Tal indiferença converte-se em particularidade da alta sociedade russa. É mais evidente entre nós do que na maior parte dos países europeus. E sem esta idéia suprema da imortalidade da alma não podem existir nem homem nem nação. Todas as grandes idéias restantes derivam dessa. O meu suicida é propagandista apaixonado da sua idéia: a necessidade do suicídio; mas não é nem indiferente nem "homem de ferro". Sofre realmente; creio tê-lo feito compreender. É para ele demasiado evidente que não pode viver; está convencido que tem razão e não se pode refuta-lo. Para que viver, se está convencido que é abominável viver vida animal? Dá-se conta da exist6encia de harmonia geral; di-lho a consciência, mas a ela não se associa. Não o compreende... Onde, então, está o mal? Em que se enganou? O mal está em ter perdido a fé na imortalidade da alma. Não obstante, procurou com todas as suas forças o sossego e a conciliação com o que o rodeia. Quis falar no "amor à humanidade". Mas isto também lhe escapa. A idéia de que a vida da humanidade nada mais é do que um instante; de que tudo, mais tarde, se reduz a zero, mate, dentro dele, até mesmo o amor à humanidade. Tem-se visto em famílias desgraçadas e desunidas de pobres sentir horror aos filhos a quem queriam tanto! A consciência de em nada poder socorrer a humanidade sofredora é capaz de transformar o amor que por ela se sente em ódio. Os senhores de "idéias de ferro" claro que não acreditarão em minhas palavras. Para eles o amor à humanidade e sua felicidade está tão bem organizado que não vale a pena pensar nisso. E desejo fazê-los rir de qualquer maneira. Declara, portanto, que o amor à Humanidade é inteiramente impossível sem a crença na imortalidade da alma humana. Os que querem substituir esta crença pelo amor à Humanidade depositam na alma dos que perderam a fé o germe do ódio à Humanidade. Que dêem de ombros os sábios das "idéias de ferro" ao ouvir-me exprimir tal idéia. Mas esta idéia é mais profunda que a sabedoria deles, e chegará o dia em que se transformará em axioma. Chego mesmo a afirmar que o amor à Humanidade é em geral pouco compreensível (leia-se inacessível) para a alma humana. Somente o sentimento pode justifica-lo, e este somente é possível com a crença na imortalidade da alma humana. (E, além disso, sem provas.)


Em resumo: está claro que sem crenças, o suicídio se torna lógico e até inevitável para o homem que apenas se elevou acima das sensações da besta. Ao contrário, a idéia da imortalidade da alma, prometendo a vida eterna, sujeita o homem mais fortemente à Terra. Nisto parece existir contradição. Se, distinta da vida terrestre, temos outra celeste, para que fazer muito caso desta aqui em baixo? Mas somente pela fé na imortalidade que o homem se inicia no fim razoável da vida sobre a Terra. Sem a convicção na imortalidade da alma, o vínculo do homem em relação ao planeta diminui, e a perda do sentido supremo da vida conduz incontestavelmente ao suicídio. E se a crença na imortalidade da alma é tão necessária à vida humana é por ser o estado normal da Humanidade, provando que a imortalidade existe. Em uma palavra: esta crença é a própria vida e a primeira fonte de verdade e de consciência real para a Humanidade. Eis aí o objetivo do meu artigo, a conclusão a que desejava que cada um chegasse quando o escrevi. Nota de Y.V.S.: Vale a pena observar a perspicácia da análise de Dostoiévski que, partindo da psicologia pura, chega a ser profética. O avanço das tais "idéias de ferro" causou um número de vítimas, não apenas na Rússia mas também nos demais países socialistas - incluindo a Alemanha nazista (Partido Nacional-Socialista) -, nunca antes visto na história: mais de 100 milhões de pessoas só no século XX. Tal extermínio em massa de um povo por seus próprios dirigentes é uma prova contundente dessa desespiritualização que, infelizmente, ainda não deixou de se alastrar pela Terra.

1 Comments:
At 4/26/2007,
Lucimara Trindade said…
Ae jah disse que adoro esse bolgspot??
=]
parabéns pelo seu trabalho aqui
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