*(LITERATURA CLANDESTINA REVOLUCIONÁRIA)*MICHEL FOUCAULT LIBERTE-ME.

VC LEU MICHEL FOUCAULT,NÃO?ENTÃO O QUE VC ESTÁ ESPERANDO FILHO DA PUTA?ELE É A CHAVE DA EVOLUÇÃO DOS HUMANOS.HISTORIA DA LOUCURA,NASCIMENTO DA CLINICA,AS PALAVRAS E AS COISAS,ARQUEOLOGIA DO SABER,A ORDEM DO DISCURSO,EU PIERRE RIVIÉRE,A VERDADE E AS FORMAS JURÍDICAS,VIGIAR E PUNIR,HISTORIA DA SEXUALIDADE,EM DEFESA DA SOCIEDADE,OS ANORMAIS...EVOLUÇÃO OU MORTE!

Wednesday, November 21, 2007

O peso das palavras 21/11/07 por Michel Déguy

http://remue.net/cont/deguy.html

Nenhuma ‘fórmula mágica’ opera à distância sobre aquilo que se chama realidade. As palavras não têm poder direto sobre as coisas. A fé não remove imediatamente montanhas; um poema não é um abracadabra que derruba muralhas de pedra.As palavras (isto é, as frases, o discurso, a linguagem) têm poder sobre os homens, podem mudar convicções e, assim, os fins e as maneiras de agir. Uma ‘conversão’ pode transformar a vontade e provocar ações, que produzem efeito. Durante muito tempo, a retórica foi chamada arte de persuadir. Minhas crenças modificadas procuram meios de agir com eficácia para “realizar” meus objetivos: o método é a grande preocupação da inteligência.Nessa perspectiva, o poder é sempre poder das palavras. Ter o poder (entendido agora como coisa e esfera da política) consiste, em última análise, em ser obedecido. O centurião do evangelho sabe disso e relembra: quando digo a meu serviçal “Vá!”, ele vai; e “Venha!”, ele vem. Etienne La Boétie eternizou o espanto no seu famoso Discurso da servidão voluntária: como se pode obedecer a esse ponto? A ordem (da paz civil) repousa sobre a ordem (do mando).Eis porque durante tanto tempo, de Demóstenes a Lênin, de Cícero a Zola ou Jaurès, a eloqüência foi admirada, analisada, cultivada como um dos ingredientes fundamentais da tomada e manutenção do poder.Duas figuras, dois tipos, arcaicos e modernos ao mesmo tempo – uma constante através das variações da História -, representam duas modalidade principais: o conselheiro do príncipe, sábio ou louco, e o ‘intelectual’, advogado capaz de mobilizar uma multidão. O conselheiro, cara a cara no segredo de gabinete, “esclarece o déspota”. O ‘intelectual’ não se dirige apenas ao chefe, mas a uma coletividade, uma multidão, nesse ou naquele momento. Ele pode ‘mudar a opinião’, provocar movimentos ‘de massa’, esperados ou temidos, a favor ou ‘contra o poder’. Convém lembrar que esta foi a expressão usada como título por um intelectual francês da III República, o filósofo Alain, hoje esquecido, para se apresentar como cidadão. Paradoxalmente, portanto, por ser difícil de ser ao mesmo tempo conselheiro do príncipe (o que ele era) e agitador da opinião.Em que se transformou essa cena, esse cenário, essa dramaturgia da política, teatro e regras da ação? Mudanças prodigiosas, até mesmo difíceis de situar e analisar, afetaram o conjunto, e, digamos, o todo do estar-juntos em sociedade. Pode-se designar de ‘silêncio dos intelectuais’ a resultante dessa transformação completa.Qual?Não há mais arena. O lugar da política (ágora ou recinto, reunião ou assembléia para a deliberação, ocasião de discurso, meeting, saída de fábrica, greve, manifestação, circulação de jornais inteligentes...) metamorfoseou-se. Chamemos de media a nova cena, a nova causa materialis da política: lugar utópico, ubíquo, ‘imaterial’, é a telinha que é a cena. Ora, a tela é doméstica, privada! A separação fundamental (Aristóteles) do privado (idiotia grega) e do público (o espaço do comum) desapareceu. O povo foi substituído pelas ‘pessoas’ (as ‘verdadeiras pessoas’ como se diz às vezes na televisão francesa). O sistema midiático ou star system – aquele por e para quem o people significa VIP e que, portanto, separa a humanidade em importantes e anônimos liquidou com os intelectuais fazendo existir (sic) apenas um punhado de ‘intelectuais midiáticos’. Se de um lado a instrução (desenvolvida de maneira formidável nas sociedades de abundância) produz milhões de inteligências ‘informadas’ – tendo a informação tomado o lugar do saber –, de outro, ao mesmo tempo, realiza a destruição das condições de sua existência política: o sistema só pode exibir, fazer ver e escutar algumas vedetes, logo transformadas em histriões pelo espetáculo (Guy Debord), que tiram a credibilidade dos intelectuais aos olhos dos telespectadores que se tornaram a partir de agora cidadãos. O silêncio se amplia no barulho.O verbo (sim; as linguagens das línguas maternas, ou logos; o elemento de eloqüência no saber falar uns aos outros) deu lugar à comunicação. Para resumir brutalmente a situação, reverto uma fala famosa de Hölderlin: “Não somos mais um diálogo”. A imagem, no sentido atual, icônica, fílmica e televisiva, ocupou todo o espaço.Dois enormes fatos – “fenômenos sociais totais”, diria, retomando as palavras de Marcel Mauss – transformaram profundamente o regime das coisas sócio-políticas, que a relação entre os intelectuais e a democracia assegurava – mesmo se a recondução homonímica desses grandes termos favoreça a ilusão da permanência desse ‘regime’. A propaganda (datemos a superpotência moderna do III Reich e do Império soviético), mudando os meios em fins, o meio em mensagem (MacLuhan) ou inversamente, tornou possível (isto é, real) a síntese do poder absoluto e do delírio: Hitler (Adolfo, o mágico, eu diria, para evocar Thomas Mann) ‘persuadiu’ os alemães e transformou-os em servidores de “(seu) combate”. Qualquer proposição (“Os Judeus são sub-homens” ou, como diz Benigni em seu filme, “Os Judeus e os dromedários não são admitidos nesse estabelecimento”) pode ganhar poder, fazer-se verdade condutora para uma sociedade humana.Ao mesmo tempo (é o mesmo fenômeno sob outro ângulo) a publicidade transformou o espaço público, isto é, mudou o espaço público em éter publicitário. O regime da verdade ocidental extenuou-se em proveito de um regime de enunciados nem-verdadeiros-nem-falsos, isto é, de uma falsidade abissal: bonimentaire, diria o filósofo Michel Serres. “Transforme-se a si mesmo fazendo como todo mundo. Torne-se singular comprando o mesmo produto etc...” Esses terríveis double-bind tornam a ‘multidão’ (termo de Negri) insensível aos paradoxos fundamentais da lucidez humana. Talvez esse caráter mentiroso fabrique a multidão.O intelectual (é seu nome) lidava com a inteligência. O problema era, pois, a burrice: o que é a burrice? Que fazer dela? A burrice são os outros? Isso, sem dúvida, não basta. A burrice é a doxal, ou dóxico, isto é, a surdez ao paradoxo, ou sua recusa. Tal foi a aposta de Pascal, de Flaubert, de Valéry, de Roland Barthes – de muitos outros ‘grandes espíritos’. Ora, a burrice (esse regime de verdades, nas quais a doxa não é mais o moï-dokeï dos gregos, não é mais o julgamento do cidadão no dissenso geral [Arendt] mas a opinião estatística produzida pela sondagem), a burrice, pois, incapaz do paradoxo, insensível à paciência da aporia, inimiga do curso que se opõe à verdade intrinsecamente ‘oximórica’, domina. O slogan publicitário, verdade de massa unilateral, imposto como gosto majoritário da existência em massa consumidora, ou ‘imagem de marca’ na concorrência dos mercados do Mercado cultural, tende a apagar as ‘luzes’ da inteligência democrática. A correlação política, ou mediatização, pode acabar com a democracia? As convicções, tornadas vazias, e os desejos reguladores da economia geral (produção/consumo) conduzem “o mundo”... para onde?* * *Pode-se dizer dessa maneira: o ‘poder das palavras’, na sua força tradicional, sustentava a coragem do que se denominava engajamento (século 20). O engajamento intelectual pressupunha a existência e a energia (a capacidade) da persuasão loquaz. Ao “engajamento” (Sartre) sucedeu a era do testemunho, a nossa. Pede-se às palavras a ‘força’ para atestar o que foi, para demonstrar: isto é, as catástrofes de uns e de outros. Mas o testemunho, verbal ou documentário, livro ou filme, tem ainda força para persuadir a renúncia do horrível? Duvido. Quanto mais testemunhos, mais tristezas e mortes. De certa maneira, as palavras e mesmo as imagens esgotam-se ao testemunhar.


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