Por que é difícil esquecer 68? 31/12/07 por Antonio Negri

http://br.youtube.com/watch?v=pcV42gFmi4w




Que 68 também foi a redescoberta da luta de classe por parte das gerações mais novas e que a década de 1965 a 1975 foi percorrida por uma onda de lutas anticolonialistas e antiimperialistas, que neste período — de Los Angeles a Praga — a revolta esteve na ordem do dia, bem, isto é tudo o que não deve ser lembrado. E as camisetas ou os bonés com o "X" de Malcomou com o retrato do Che até podem ser objetos meio banais, um tanto inconsequentemente impetuosos, mas inofensivos para as novas gerações, entregues ao esquecimento.A mim, o esquecimento não é permitido, devido à incômoda situação em que me encontro. Ainda assim, procurando não me deixar envolver por esta situação, pergunto-me se aquelas reevocações superficiais e essas reticências profundas, se aquela pressão para o esquecimento enquanto se finge a comemoração, não estariam escondendo (na atual historiografia filtrada pela mídia) algo de mais doloroso, como se 68 tivesse representado, para as classes dirigentes, um medo enorme, talvez uma ferida profunda que ainda não cicatrizou. E, prosseguindo neste questionamento, vou me convencendo aos poucos que a minha suspeita descobre uma verdade.O que dizer então para desvelar aquela falsa imagem de 68 e para desmascarar a pérfida rejeição a toda possível consequência atual? O que dizer, o mais friamente possível, "sine ira et studio", quase colocando-se no ponto de vista do poder? Que há alguns elementos irreversíveis determinados por 68, alguns sinais que marcaram definitivamente a história futura. Vamos recordar ao menos dois: um social, o outro político, aliás, estritamente interligados.



Ora, 68 impele ao limite a sustentabilidade deste modelo secular, por mais que este tivesse sido aperfeiçoado pelos "reformismos" convergentes do "big labor" e do "big business" e sustentado, de modo cada vez mais imponente, pelo Estado. Por quê? Porque o nível da demanda social dos trabalhadores, e sobretudo o de seus filhos, geralmente já aculturados, rompe os equilíbrios políticos da reprodução capitalista. Os estudantes que se revoltam, já não são os "filhinhos de papai" das velhas burguesias dominantes, já se tratava das camadas de um novo proletariado. Eles são a antecipação da nova força-trabalho imaterial, fortemente intelectualizada, que, nos 30 anos que se seguiram, observamos se impondo na produção.Se 68 foi um movimento dos filhos contra os pais, certamente não foi um movimento romântico; registrava socialmente e antecipava politicamente um novo regime da produção. E esses estudantes, fortalecidos por uma possível hegemonia, não tardam, nos países europeus, a arrastar consigo, no rompimento do sistema, o proletariado urbano das fábricas; nos países americanos, onde as linhas de classe e de cor se entrelaçam profundamente, a revolta instaura-se na dimensão cultural das metrópoles. Eis então um primeiro paradoxo político deste movimento, eis o motivo por que aindafere.
O movimento de 68 é um movimento precursor, cuja força de renovação não se esgotou, e que revela um novo protagonista do processo de liberação da exploração, um protagonista intelectual, porque é assim que o trabalho se tornou — ou seja, tira do empreendimento capitalista a possibilidade (que fora o fundamento da autoridade nos séculos passados) de opor o trabalho intelectual ao manual, de enobrecer o comando por meio do saber.Deriva daí um segundo paradoxo. Se, por um lado, de fato 68 contesta a organização capitalista da sociedade e do trabalho, por outro lado decreta o fim do "ocialismo real", destrói a centralidade político-social do movimento operário tradicional, denuncia no socialismo real o modernizador do capital. Isto não é quanto basta para provocar uma crise de nervos, nas certezas de ontem e na aleatoriedade do hoje, à casta dos poderosos, de direita ou de esquerda? É sim, porque 68 foi e é percebido como o indicador de uma verdadeira "revolução de época": marca o fim do moderno — das relações de força sociais e políticas, das ideologias, das esperanças e das ilusões, da riqueza e da miséria, que eram próprios do moderno. O que acontece depois, nós chamamos de pós-moderno. Claro, 68 não conseguiu indicar uma forma política, que não a da insurreição, para a organização do novo: mas quem poderia pedir isso? Marcou um ponto irreversível na história do desejo de liberação das multidões; e, se foi uma revolução política falhada, é uma revolução ontológica bem-sucedida. Inumeráveis são os eventos constituintes que seguiram 68, as névoas matinais estão rareando. Como não esperar a configuração de um novo poder constituinte? Como, ao contrário, pretender que, da mídia ao poder, não seja tão constrangedor lembrar, ou mesmo, hipocritamente comemorar o movimento de 68?

0 Comments:
Post a Comment
<< Home