*(LITERATURA CLANDESTINA REVOLUCIONÁRIA)*MICHEL FOUCAULT LIBERTE-ME.

VC LEU MICHEL FOUCAULT,NÃO?ENTÃO O QUE VC ESTÁ ESPERANDO FILHO DA PUTA?ELE É A CHAVE DA EVOLUÇÃO DOS HUMANOS.HISTORIA DA LOUCURA,NASCIMENTO DA CLINICA,AS PALAVRAS E AS COISAS,ARQUEOLOGIA DO SABER,A ORDEM DO DISCURSO,EU PIERRE RIVIÉRE,A VERDADE E AS FORMAS JURÍDICAS,VIGIAR E PUNIR,HISTORIA DA SEXUALIDADE,EM DEFESA DA SOCIEDADE,OS ANORMAIS...EVOLUÇÃO OU MORTE!

Thursday, December 20, 2007

entrevista Alain Badiou 20/12/07

Sua trajetória é peculiar, já que o sr. é um filósofo cujos primeiros livros são dois romances ("Almagestes", de 1964, e "Portulans", de 1967). Sua produção como dramaturgo conta com quase uma dezena de livros. Como a prática literária influenciou suas decisões filosóficas? No meu caso, a vocação de escritor foi originária. Escrevi meu primeiro romance quando comecei os estudos em filosofia. Na época, meu mestre era Sartre, que escrevia filosofia, mas também romances, peças de teatro, ensaios políticos. Isso me mostrou a inexistência de contradição entre a escritura literária e a escritura filosófica. Na verdade, acredito que, para compreender essa tradição francesa, é necessário retornar ao período clássico. Montaigne, Pascal, Rousseau, Diderot são escritores e filósofos. Hoje, Derrida, Deleuze ou Rancière trazem também um cuidado absoluto à escritura. E você sabe como Lacan é um escritor precioso. Claro que essa tradição literária tem conseqüências filosóficas. Trata-se da ligação entre filosofia e vida real, entre a filosofia e outras formas de pensamento e de criação. Nossa idéia de filosofia se opõe ao modelo alemão e, posteriormente, ao modelo norte-americano do filósofo como especialista isolado no mundo acadêmico. Para nós, o filósofo está no interior da cidade, ele é militante, amante, artista. Ele só se transforma em professor por razões de sobrevivência material. Mesmo Descartes era um solitário independente, estranho à filosofia oficial da Sorbonne. Na verdade, ele preferia discutir com as mulheres do que com os professores.


Em seu livro, o sr. pensa um novo regime de articulação entre filosofia e arte através do conceito de "ética", pois as grandes tendências do recurso filosófico à arte teriam se esgotado. Por que a filosofia teria fracassado na sua tentativa de pensar a arte? A filosofia tem dificuldade em reconhecer plenamente a independência da arte. A arte é por si mesma um pensamento, ela não necessita do filósofo, o inverso é mais correto. Mas não devemos levar esse reconhecimento até o desprezo estético pela filosofia, como Nietzsche. Nietzsche admira a potência vital da arte e trata o filósofo, identificado ao padre, como o "criminoso dos criminosos". Nós precisamos de novos conceitos capazes de evitar tanto o imperialismo conceitual (a arte é apenas um momento secundário na vida do espírito) quanto o imperialismo estético (a arte é o único pensamento sensível e vivo). No final do século 19, nós acreditávamos poder substituir o filósofo de Platão pelo artista-rei. É necessário um caminho entre essas duas imagens. É esse imperialismo estético que o faz criticar Heidegger e a hermenêutica? A hermenêutica de Heidegger sempre me surpreendeu por sua pouca atenção às operações artísticas do poema. Trata-se sempre de inserir a poesia em uma espécie de destino do pensamento, de mostrar como certos poemas (de Hölderlin, de Trakl, de Rilke) guardam o ser contra seu esquecimento metafísico. A singularidade dos poetas desaparece em uma profecia sobre o "tempo do afastamento" e sobre o retorno salvador. Ao contrário, meu propósito consiste em descobrir a singularidade das operações da poesia em sua irredutibilidade. Creio ter feito isso ao falar do isolamento em Mallarmé, da interrupção em Rimbaud, da encenação do século em Mandelstam. Nessa mesma linha, examinei a relação poética original entre Pessoa e o Platonismo. Um grande poema não é a voz do ser nem um encaminhamento em direção à palavra. Ele é uma experimentação local do pensamento no infinito da língua. Ele propõe uma solução a um problema preciso cujos dados ele próprio construiu por meio de imagens, cadências e estilo afirmativo . O sr. diz que a arte do século 20 foi animada pela "paixão do real". Mas vários críticos de arte avaliam a arte através de categorias como virtual, simulacro e mimetismo. Por que essa perspectiva seria inadequada para apreender a arte contemporânea? Essa paixão do real não diz respeito apenas à arte. Ela serve para explicar os empreendimentos políticos violentos que quiseram fundar uma nova ordem coletiva por meio de uma ciência do real (como o marxismo, por exemplo). Tais empreendimentos alcançaram a destruição, mas não a construção. Eles inventaram ações revolucionárias que fracassaram na construção de um novo Estado.Da mesma forma, a arte foi cada vez mais destrutiva: ela atacou a representação, a imitação, a própria obra. As considerações sobre o virtual, o simulacro, as atividades de instalações, a "body art" apenas continuaram essa tendência negativa. Para mim, uma boa parte da arte contemporânea está atrasada em relação ao movimento geral do pensamento e às novas questões filosóficas e políticas. Ela é ainda uma arte da primeira metade do século 20, uma arte que ressuscita artificialmente um conceito gasto de vanguarda.A única filosofia adequada às exigências da arte que virá é uma filosofia afirmativa, que privilegie a invenção construtiva e não a desconstrução. Em suma, uma filosofia que proponha um novo conceito de verdade. E o sr. identifica hoje algum projeto estético capaz de pensar essas novas questões filosóficas e políticas? Eu não gostaria de distribuir valores aos artistas. Isso seria manifestar novamente o imperialismo filosófico. Toda obra que procura dizer nosso mundo em sua extensão e variedade me interessa. Nesse sentido, continuo um realista, um clássico contemporâneo. Mas, se a vanguarda esgotou seus recursos, não devemos retornar aos sistemas antigos de representação, seja a figuração na pintura, a tonalidade na música, a narração objetiva na literatura ou a teatralidade simplificada no cinema. A visão pós-moderna de um ecletismo livre que mistura épocas e culturas também me é estranha. Procuro um novo conceito de verdade e não cederei às tentações do relativismo cultural. Para mim, trata-se de inventar um novo realismo, uma capacidade formal de dizer, universalmente, nossa situação no mundo. Foi o que tentei em meu romance "Calme Bloc Ici-bas" (1998). Não o cito por vaidade, mas para assumir uma responsabilidade. Sobre esse novo conceito de verdade, o sr. afirmou que a modernidade filosófica ainda não está à altura de Fernando Pessoa. Como sua poesia pode orientar a filosofia nessa procura?
Veja, a força de sua poesia não vem do reconhecimento de uma autoridade sacral ou de uma revelação do ser. A construção poética de Pessoa é essencialmente racionalista, e o poema está a serviço de uma meditação centrada na questão da metafísica. Pessoa coloca a seguinte questão: se a metafísica em seu sentido estritamente filosófico se tornou impossível, como a poesia pode falar em seu próprio nome dessa impossibilidade e dos meios de reconstruir uma estrutura geral para o pensamento. A partir dessa questão, Pessoa se entrega a operações poéticas complexas, cujo sistema de heterônimos é apenas uma recapitulação formal. Creio que a filosofia contemporânea se enfraquecerá consideravelmente se insistir em ignorar tais operações. É surpreendente que os heideggerianos não levem em consideração o pensamento do ser nos poemas de Caeiro. O sr. é o principal teórico da esquerda a defender uma política sem partido. Não haveria nenhuma política possível de esquerda no interior do sistema parlamentar de representação? Precisamos primeiro redefinir o que é uma política "de esquerda". A questão hoje não é exatamente a existência de orientações políticas, mas a existência da própria política. Depois do fracasso dos Estados pós-revolucionários, estamos diante da tarefa de desenvolver um projeto completo de emancipação coletiva. Nós estamos ainda no estágio experimental desse projeto. Mas uma coisa é certa: devemos romper com o sistema de representação parlamentar e com a ideologia "democrática" ocidental. Essa ruptura será facilitada por uma evidência: cada vez mais esse "democratismo" apenas serve para encobrir as intervenções militares e as ingerências, particularmente do Exército norte-americano, mas com a cumplicidade ou com a resignação covarde dos europeus e japoneses. É necessário experimentar outras vias e romper com o monopólio político exigido pela "democracia".



2 Comments:

  • At 1/30/2008, Blogger além mar peixe voador said…

    ótimo, muito obrigada, abraço afetuosos, virgínia

     
  • At 1/31/2008, Blogger Michèle Sato said…

    acadêmica, normalmente ataco a arrogância humana usando o discurso científico.

    a contradição gerada é genial!

    ainda que se critique a filosofia, o discurso do texto aqui revelado é estético!

    viva a alma humana em ousar quebrar fronteiras e, sem medo de ser feliz, tecer considerações fecundas e tão bonitas.

    parabéns
    *

     

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