*(LITERATURA CLANDESTINA REVOLUCIONÁRIA)*MICHEL FOUCAULT LIBERTE-ME.

VC LEU MICHEL FOUCAULT,NÃO?ENTÃO O QUE VC ESTÁ ESPERANDO FILHO DA PUTA?ELE É A CHAVE DA EVOLUÇÃO DOS HUMANOS.HISTORIA DA LOUCURA,NASCIMENTO DA CLINICA,AS PALAVRAS E AS COISAS,ARQUEOLOGIA DO SABER,A ORDEM DO DISCURSO,EU PIERRE RIVIÉRE,A VERDADE E AS FORMAS JURÍDICAS,VIGIAR E PUNIR,HISTORIA DA SEXUALIDADE,EM DEFESA DA SOCIEDADE,OS ANORMAIS...EVOLUÇÃO OU MORTE!

Thursday, November 29, 2007

Onde começam os erros de Lacan 29/11/07 por Peter Sloterdijk

http://www.petersloterdijk.net/
A ênfase na imago das teorias psicanalíticas do relacionamento, problemática desde o início, foi levada ao extremo por Lacan, com seu lendário teorema do “estágio do espelho como formador da função do Eu”1, de 1949. Lacan pressupõe uma situação infantil primitiva que, desde sempre, foi combalida pela impossibilidade de se sustentar a si mesmo. Para Lacan, cada lactente é despedaçado pelos estados de aniquilamento
incuráveis. Desde o início e de forma inevitável, a psicose é sua verdade e realidade. Ele é lançado ao mundo, impotente e atraiçoado, como o já sempre despedaçado corpo, que dificilmente pode manter unidos seus fragmentos. A verdade seria que o despedaçamento precederia a totalidade e que a primeira palavra pertenceria, por toda
parte, a uma psicose originária. É compreensível – caso sigamos por um momento as sugestões do analista francês – que, para um ente tão dissociado no seu fundamento,fervendo na sua perdição, a visão da sua própria imagem, de perfil estável, lá no espelho deva ser sumamente edificante, já que o sujeito poderia finalmente, pela primeira vez,perceber-se naquele lá imaginário com a forma de um todo, sem fenda e sem mácula.Aqui, a auto-imagem no espelho entraria em jogo como libertadora de um sentimento de si mesmo insuportável. Somente a imagem lá no espaço do espelho me provaria, contra meu evidente sentimento de mim mesmo, que eu não sou nenhum monstro, mas uma criança humana bem sucedida, dentro dos belos limites da sua forma orgânica.Reconhecer-se no espelho como “isso, sim, sou eu mesmo” significaria, portanto: rir
para uma imagem subitamente reluzente, sentir sua integridade como uma mensagem da
salvação e ascender, em júbilo e liberto, a um céu imaginário de imagens totais, no qual a anterior dilaceração real e verdadeira nunca mais necessitaria ser confessada.Finalmente o infans poderia deixar para trás seu despedaçamento humilhante e sua impotência furiosa; ser-lhe-ia dada, de repente, a possibilidade de, recém-invulnerável,atravessar flutuando o vidro do espelho, chegar ao espaço de imagens e ingressar, tal como um herói transfigurado, no reino de uma integridade demente – radiante, salvo da miserável condição primária, para a qual ele, de agora em diante, pensa nunca mais ter que voltar, supondo que o escudo onírico da imagem do eu incorruptível se afirme contra todas as perturbações posteriores. De acordo com isso, o desenvolvimento do eu deveria iniciar-se, sempre e inevitavelmente, com um auto-desconhecimento salvador: a aparição imaginária lá fora e do outro lado – minha imagem como sã, total, libertadora –tirou-me, enquanto eu a admito radicalmente no meu lugar, do inferno sem imagens de minha vida inicialmente sentida e me oferece a promessa maravilhosamente enganosa de eu sempre poder, no futuro, viver dessa imagem – como sob uma proteção ilusória.
Minha imagem ilusória de mim lá fora na visibilidade – no imaginário ou no visual transfigurado – seria, pela sua boa forma e totalidade, como que um evangelho escrito só para mim, seria uma promessa que me antecipa e me consolida. Assim que eu a recebesse em mim, ela repousaria no fundamento de mim mesmo como a feliz mensagem de minha ressurreição do aniquilamento inicial. Minha imagem, meu engano originário, meu anjo da guarda, minha loucura.É possível mostrar sem muito esforço que este inicial e mais famoso fragmento teórico do corpo da doutrina lacaniana apresenta uma brilhante construção enganosa que se erige na base da voluntariosa e patética falsa avaliação da comunicação inicial diádica entre a criança e seu acompanhante-complemento, o qual via de regra é a mãe,sem falar nos meios de complementação pré-natais. A imagem própria especular, como tal, não pode acrescentar à “auto”-averiguação da criança nada que não estivesse plantado desde há muito no nível dos jogos de ressonância vocais, táteis, interfaciais e emocionais e dos sedimentos internos destes. Antes de todo e qualquer encontro com a própria imagem no espelho um infans não descuidado “sabe” muito bem e com precisão
o que significa viver de maneira não traumatizada no interior de uma dualidade continente e sustentadora. Numa estrutura psíquica de dois-em-um, suficientemente bem sucedida, emerge a percepção imaginal de si mesmo na criança que nota,ocasionalmente, seu reflexo num meio vítreo, metálico ou aquático, como uma camada perceptiva adicional que diverte e atiça a curiosidade sobre um tecido de experiências de ressonância já espesso e confiável; a imagem no espelho não surge de forma alguma como a primeira e abrangente informação sobre o próprio poder-ser-total; ela dá,
contudo, uma indicação inicial da sua entrada em cena como corpo coerente entre corpos coerentes no espaço visual real. Mas este ser-corpo-imagem integral não significa quase nada perante as certezas pré-imaginárias, não-eidéticas, da integridade dual emocional e sensível. Uma criança que cresce em um contínuo suficientemente bom é, há muito, bastante instruída a partir de outras fontes sobre os fundamentos da sua continência numa forma de realização. Seu interesse pela coerência é mais ou
menos satisfeito muito antes da informação eidética especular. Mediante sua imagem
vista no espelho ela não vem a conhecer nenhuma possibilidade de ser ou de felicidade
radicalmente nova, fundada exclusivamente no imaginário visual. De resto, cabe notar que – como observado anteriormente2 – antes do século XIX a maioria dos lares da Europa não possuía espelho, de forma que já sob o mais simples aspecto históricocultural,o teorema de Lacan, apresentado como um dogma antropológico válido atemporalmente, é vazio de conteúdo.
Decerto, se o jogo de ressonâncias entre a criança e seu contraposto complementar é carregado de ambivalências, descuidos ou sadismos, abrir-se-á na criança, naturalmente, uma inclinação a se apegar aos magros momentos positivos de experiência de complementariedade – sejam as precárias amabilidades das pessoas com as quais se relaciona, os sonhos auto-eróticos regressivos ou as identificações com os heróis invulneráveis das lendas e dos mitos. Do ponto de vista empírico permanece sem qualquer esclarecimento a pergunta de saber se a visão precoce da própria imagem no espelho realmente ajuda as crianças psicóticas, que estão no limite entre o estágio de lactente e o da primeira infância, nas ressurreições imaginárias mediante fantasias de
integridade embasadas ópticamente. O caso particular, exagerado por Lacan, de que o sujeito em desenvolvimento se lança para fora de si, na imagem, a fim de evitar a desproporção sentida na própria pele despedaçada e tornar-se, no mundo-da-imagem,uma totalidade ilusória, apresenta, em todo caso, se é que possui uma realidade casuística, tão somente um significado patológico. Este caso poderia ter seu lugar na vida somente no meio e na estrutura familiar empobrecidos com uma inclinação para o malcuidado crônico do lactente. De fato, para toda fundação do eu que foi realizada assim, mediante a fuga para a ilusão imaginal de totalidade intacta, poder-se-ia prever aquela labilidade paranóide que Lacan, partindo da sua auto-análise, pretendeu
explicitar ilegitimamente como marca distintiva universal da psique nas culturas de todos os tempos. Ainda assim, se no fundamento de um si mesmo fosse possível,efetivamente, encontrar um imaginário auto-ofuscante desse tipo, também seria esclarecido porque o sujeito em um universo lacaniano poderia encontrar sua salvação ou, ao menos, sua ordem, somente no simbólico. Somente a submissão à lei simbólica salva da psicose constitutiva. Mas, o que é isto senão a continuação do catolicismo por meios aparentemente psicanalíticos? Com certeza, ninguém irá farejar com tanta clareza furiosa as feridas vindas de toda parte como aquele sujeito que tornou o seu poder-sertodo dependente da defesa das imagens do próprio eu, ofuscantes e exageradas fantásticamente; contudo, a afirmação de que as formações egóicas básicas no
imaginário seriam, dessa forma, a regra universal, só pode ser sustentada por alguém que apoia uma extravagância em uma outra. Isto significa colocar a própria psicologia a serviço da psicose. Já no início, o próprio Lacan entregou-se a um dogmatismo da psicose originária, cujos motivos não eram psicanalíticos, mas provenientes de interesses cripto-católicos, surrealistas e para-filosóficos. De acordo com sua tendência e tonalidade, o estupeficante teorema de Lacan do estágio do espelho é uma paródia da doutrina gnóstica da libertação através do auto-conhecimento; de acordo com esse paradigma problemático, aqui o pecado original fica substituído pela ilusão original,sem que jamais fique claro se a ilusão seria algo a conservar ou a ultrapassar. Trata-se,em todo caso, do desconhecimento inicial de si mesmo que proporciona aos sujeitos as tão indispensáveis quanto fatais imagens enganosas – Lacan fala ocasionalmente da
função “ortopédica” da imagem enganosa primária. Quem poderia, portanto, sem esse esteio da auto-ilusão sobreviver psiquicamente íntegro – e quem deveria ter interesse em quebrar essa ilusão ao sujeito? Ao mesmo tempo, porém, a ilusão deve ser o que ela é –uma imagem enganosa que tem que ser desfeita à medida em que partem dela as atrações fatais. Conhecer-se ou não a si mesmo – essa é a questão aqui. Pior para aqueles aos quais nunca adveio, de um pretenso imaginário – e, muito menos ainda, de um amor verdadeiro –, a imagem confiável do próprio poder-ser-total.

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