Darfur? É o petróleo, estúpido..China e EUA em nova guerra fria 20/06/07

Nos últimos meses, Pequim lançou uma série de iniciativas orientadas a assegurar fontes de matérias-primas a longo prazo em uma das regiões melhor dotadas do planeta – o subcontinente africano. Nenhuma matéria-prima tem, no presente, prioridade maior em Pequim que a garantia de fontes de petróleo no futuro.Calcula-se que, atualmente, a China recebe 30% de seu petróleo cru da África. Isso explica uma série extraordinária de iniciativas diplomáticas que enfureceram Washington. A China está utilizando financiamentos em dólares, sem prévias condições, para lograr acesso à vasta riqueza em matérias-primas da África, deixando de lado o típico jogo de controle de Washington, através do Banco Mundial e do FMI. Quem necessita o doloroso remédio do FMI se a China oferece condições fáceis e, além disso, constrói estradas e escolas?Em novembro do ano passado, Pequim foi sede de uma reunião extraordinária de 40 chefes de Estados africanos. Os chineses estenderam, literalmente, o tapete vermelho para os líderes, entre outros, da Argélia, Nigéria, Mali, Angola, República Centro-Africana, Zâmbia, África do Sul.
A China acaba de fechar um acordo petrolífero, que vincula a República Popular da China com as duas maiores nações do continente – a Nigéria e a África do Sul. A CNPC [sigla em inglês da Corporação Nacional Petrolífera da China] obterá petróleo na Nigéria, através de um consórcio que também inclui a South African Petroleum Co., dando à China o acesso que poderia atingir 175.000 barris ao dia em 2008. É um acordo de US$ 2,27 bilhões com a Nigéria, que oferece à CNPC, controlada pelo Estado, uma participação de 45% em um grande campo petrolífero off-shore. Previamente, a Nigéria foi considerada em Washington como um ativo das principais empresas petrolíferas anglo-americanas, ExxonMobil, Shell e Chevron.A China foi generosa na outorga de empréstimos a taxas de juros reduzidos, sem juros ou em concessões diretas a alguns dos países devedores mais pobres da África. Os empréstimos foram destinados à infra-estrutura, incluindo estradas, hospitais e escolas, em agudo contraste com a brutal austeridade das exigências do FMI e do Banco Mundial. Em 2006, a China destinou mais de US$ 8 bilhões para a Nigéria, Angola e Moçambique, contra US$ 2,3 bilhões do Banco Mundial destinados a toda a África Sub-Saariana. Gana está negociando um empréstimo para a eletrificação de US$ 1,2 bilhão com a China. Diferentemente do Banco Mundial, de fato um braço da política econômica externa dos EUA, a China é sagaz ao não condicionar seus empréstimos.Essa diplomacia chinesa relacionada com o petróleo levou a uma bizarra acusação, partida de Washington, de que Pequim trata de “assegurar petróleo nas fontes,” algo que caracterizou a política exterior de Washington há um século pelo menos.Nenhuma fonte de petróleo, ultimamente, esteve mais na mira do conflito petrolífero China-EUA que o Sudão, onde se encontra Darfur.




Em fevereiro de 2003, o SLA lançou ataques contra posições do governo do Sudão na região de Darfur. O secretário-geral do SLA, Minni Arkou Minnawi, convocou à luta armada, acusando o governo de ignorar Darfur. “O objetivo do SLA é criar um Sudão democrático unido.” Em outras palavras, mudança de regime no Sudão.O Senado dos EUA adotou uma resolução, em fevereiro de 2006, pela qual solicitou tropas da OTAN em Darfur, assim como uma força mais robusta de manutenção de paz da ONU, com mandado firme. Um mês depois, o presidente Bush também pediu forças adicionais da OTAN em Darfur. Ah hã... Genocídio? Ou petróleo?

O projeto petrolífero da Chevron em 1974:As principais empresas petrolíferas dos EUA conheciam a riqueza petrolífera do Sudão desde o início dos anos setenta. Em 1979, Jafaar Nimeiry, principal dirigente do Sudão, rompeu com os soviéticos e convidou a Chevron para desenvolver a exploração do petróleo no país. Talvez tenha sido um erro fatal. O embaixador dos EUA, George H.W. Bush, havia informado pessoalmente a Nimeiry sobre fotos tomadas de satélite que indicavam petróleo no Sudão. Nimeiry mordeu o anzol. As guerras pelo petróleo foram a conseqüência desde então.A Chevron encontrou grandes reservas de óleo no sul do Sudão. Gastou US$ 1,2 bilhão em pesquisas e comprovações. Esse petróleo provocou o que chamam de a segunda guerra civil do Sudão, em 1983. A Chevron virou alvo de repetidos ataques e assassinatos, e suspendeu o projeto em 1984. Em 1992, vendeu suas concessões petrolíferas sudanesas. Então a China começou a desenvolver os campos abandonados pela empresa em 1999, com resultados notáveis.Mas, atualmente, a Chevron não está longe de Darfur.

Para fazê-lo, trabalharam com o “presidente vitalício” do Chade, Idriss Deby, um déspota corrupto, que foi acusado de entregar armas fornecidas pelos EUA aos rebeldes de Darfur. Deby somou-se à Iniciativa Pan Sahel, de Washington, dirigida pelo Comando Europeu do Pentágono, para treinar suas tropas com o objetivo de combater o “terrorismo islâmico”. A maioria das tribos na região de Darfur são islâmicas.Provido de ajuda militar, treinamento e armas dos EUA, Deby lançou, em 2004, o ataque inicial que provocou o conflito em Darfur, utilizando membros de sua Guarda Presidencial de elite oriundos da província, fornecendo veículos para qualquer terreno, armas e canhões antiaéreos para os rebeldes de Darfur, que combatem o governo de Cartum, no sudoeste do Sudão. Na realidade, o apoio militar dos EUA a Deby foi o detonador para o banho de sangue em Darfur. Cartum reagiu e a debacle resultante foi desatada com toda sua trágica força.As ONGs respaldadas por Washington e o governo dos EUA utilizam o genocídio não demonstrado como um pretexto para terminar levando tropas da ONU e da OTAN para as jazidas petrolíferas de Darfur e do sul do Sudão. O petróleo, não a miséria humana, está por trás do renovado interesse de Washington por Darfur.A campanha pelo “genocídio de Darfur” iniciou em 2003, ao mesmo tempo em que começou a fluir o petróleo pelo oleoduto Chade-Camarões. Os EUA tinham, então, uma base no Chade para conseguir o petróleo de Darfur e, potencialmente, apoderar-se das novas fontes chinesas de petróleo. Darfur é um território estratégico, a cavaleiro do Chade, a República Centro-Africana, o Egito e a Líbia.De acordo com Keith Harman Snow: “Os objetivos militares dos EUA em Darfur – e visto mais amplamente no Chifre da África – são servidos hoje pelo respaldo dos EUA e da OTAN para as tropas da União Africana em Darfur. Lá, a OTAN fornece apoio por terra e nos ares para as tropas da UA, que são qualificadas de “neutras” e de “mantenedoras da paz”. O Sudão está em guerra em três frentes, cada país - Uganda, Chade, e Etiópia – com uma importante presença militar dos EUA e contínuos programas militares norte-americanos. A guerra no Sudão envolve tanto operações clandestinas dos EUA como de facções “rebeldes” treinadas pelos norte-americanos, que chegam do sul do Sudão, Chade, Etiópia e Uganda”.Deby, do Chad , olha a China tambémA conclusão do oleoduto financiado pelos EUA e o Banco Mundial desde o Chade até a costa de Camarões foi planejada como parte de um plano muito mais grandioso de Washington para controlar as riquezas petrolíferas da África Central, do Sudão a todo o Golfo de Guiné.Mas, o comparsa de Washington no passado, o presidente vitalício do Chad, Idriss Deby, começou a mostrar descontentamento com sua pequena participação nos lucros do petróleo controlado pelos EUA. Quando ele e o parlamento do Chade decidiram, no início de 2006, que utilizariam uma maior parte do faturamento do petróleo para financiar operações militares e reforçar seu exército, o novo presidente do Banco Mundial, o arquiteto da guerra no Iraque, Paul Wolfowitz, entrou em ação para suspender os empréstimos ao país. Então, em agosto, depois de que Deby alcançou sua reeleição, criou a própria companhia petrolífera do Chade, a SHT, e ameaçou com a expulsão da Chevron e da Petronas da Malásia por não pagarem dívidas com impostos, e exigiu uma participação de 60% no oleoduto do Chade. Terminou por chegar a um acordo com as companhias petrolíferas, mas ventos de mudança sopraram.


Deby também enfrenta uma crescente oposição interna de um grupo rebelde do Chade, a Frente Unida pela Mudança, conhecida por seu nome francês como FUC, à qual acusa ser secretamente financiada pelo Sudão. Essa região é uma parte muito complexa do mundo da guerra. A FUC tem base em Darfur.No interior dessa situação instável, Pequim surgiu no Chade com um cofre cheio de dinheiro para ajuda. Em fins de janeiro, o presidente chinês, Hu Jintao, visitou oficialmente o Sudão e Camarões, entre outros Estados africanos. Em 2006, os dirigentes chineses visitaram não menos de 48 países africanos. Em agosto de 2006, Pequim recebeu o ministro de Relações Exteriores do Chade para conversações visando reatar os laços diplomáticos formais interrompidos em 1997. A China começou a importar petróleo do Chade, assim como do Sudão. Não é muito petróleo, mas se Pequim seguir o mesmo caminho, isso logo mudará.Em abril deste ano, o ministro de Relações Exteriores do Chade anunciou que as negociações com a China sobre uma maior participação chinesa no desenvolvimento petrolífero do Chade “progrediam bem”. Referiu-se às condições que os chineses pedem para o desenvolvimento petrolífero, qualificando-as como próprias de “sociedades mais igualitárias do que as que estamos acostumados a ter.”A presença econômica chinesa no Chade, ironicamente, poderia resultar mais efetiva em aplacar a luta e o deslocamento das populações em Darfur do que qualquer presença de tropas da União Africana ou da ONU. Isso não seria bem visto por alguns em Washington, ou no quartel-general da Chevron, porque não faria com que o petróleo caísse em suas mãos ensangüentadas e sujas de graxa.Chade e Darfur são somente uma parte do vasto esforço chinês para obter “petróleo na fonte” em toda a África. O petróleo é também o fator primordial na atual política africana dos EUA. O interesse de George W. Bush na África inclui uma nova base dos EUA em São Tomé/Príncipe, a 200 quilômetros do Golfo da Guiné, de onde pode controlar as jazidas petrolíferas de Angola, ao sul do Congo, Gabão, Guiné Equatorial, Camarões e Nigéria. É pura casualidade que sejam as mesmas áreas onde se concentram a recente atividade diplomática e os investimentos chineses.“O petróleo da África Ocidental se converteu em um interesse estratégico nacional para nós,” declarou, em 2002, o secretário-adjunto de Estado para a África, Walter Kansteiner. Darfur e Chade não são mais que uma extensão da política dos EUA no Iraque “por outros meios” – controle do petróleo em todas as partes. A China disputa esse controle “em todas partes,” sobretudo na África. Equivale a uma nova Guerra Fria não declarada pelo petróleo.

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