*(LITERATURA CLANDESTINA REVOLUCIONÁRIA)*MICHEL FOUCAULT LIBERTE-ME.

VC LEU MICHEL FOUCAULT,NÃO?ENTÃO O QUE VC ESTÁ ESPERANDO FILHO DA PUTA?ELE É A CHAVE DA EVOLUÇÃO DOS HUMANOS.HISTORIA DA LOUCURA,NASCIMENTO DA CLINICA,AS PALAVRAS E AS COISAS,ARQUEOLOGIA DO SABER,A ORDEM DO DISCURSO,EU PIERRE RIVIÉRE,A VERDADE E AS FORMAS JURÍDICAS,VIGIAR E PUNIR,HISTORIA DA SEXUALIDADE,EM DEFESA DA SOCIEDADE,OS ANORMAIS...EVOLUÇÃO OU MORTE!

Wednesday, June 27, 2007

Psicanálise e feminismo: encontro entre discursos sobre a identidade sexual.27/06/07

texto feminista.
Entre a psicanálise de Freud e a teoria feminista de Judith Butler salta-me aos olhos o contorno da figura do sujeito sexuado que ambas se esforçam em traçar. Percebo-a como um entrelaçamento complexo de diversos argumentos que partem de uma fonte comum: a idéia de que sexo e gênero humanos não podem ser concebidos sem que se leve em conta a noção de construção. De dentro da vasta malha de pontos teóricos que aproximam e/ou fazem colidir Butler e Freud, escolho uma trama que servirá para ilustrar as relações entre esses dois discursos no que se refere às questões de gênero e sexualidade. Trata-se da noção de
melancolia do gênero, apresentada por Butler em Problemas de gênero. A partir de minha posição subjetiva de pesquisadora feminista psicanalista, tomo tal noção como ponto de partida porque percebo nela a possibilidade de falar da importância da teoria freudiana para o trabalho de Butler e também de minha tentativa de reconstituir um discurso psicanalítico que possa conter as nuances propostas pela teoria butleriana. Apresento esse artigo como parte de minha pesquisa de doutorado na Universidade de Paris VII realizada na Escola Doutoral de Pesquisas em Psicanálise.



1
Melancolia e Gênero
Judith Butler se utiliza da teoria freudiana da melancolia como uma ferramenta para pensar
aconstituição dos sujeitos como seres sexuados. É também seguindo os passos da elaboração dessa teoria que pensa a relação entre cultura e homossexualidade. A partir de sua leitura de textos fundadores de noções tais que melancolia, identificação, escolha de objeto e eu(ego), tenta determinar uma genealogia do que ela chama de cultura da melancolia do gênero Para melhor compreender o que isso quer dizer, sugiro que retornemos aos textos de Freud que lhe serviram como ponto de partida em Problemas de Gênero. Fundamentalmente, Butler cita dois textos: Luto e Melancolia, de 1915 e O Eu e o Isso,
de 1923. Neles, Freud apresenta algumas de suas elaborações teóricas sobre a identificação,
um conceito que determina em sua teoria não apenas um mecanismo psicológico entre outros,
mas sim a "operação pela qual o sujeito humano se constitui"i. Esta operação traz 2 obrigatoriamente em si a marca do sexual, já que toma corpo nas primeiras relações da criança
com seus pais - inicialmente em forma de incorporação oral baseada na maneira como o bebê
se relaciona com o seio da mãe e mais tarde em forma de identificações edípicas ao pai e à
mãe. Em "Luto e melancolia", Freud descreve o processo melancólico da seguinte maneira:
" Existem, num dado momento, uma escolha objetal, uma ligação da libido a uma pessoa particular; então, devido a uma real desconsideração ou desapontamento proveniente da pessoa amada, a relação objetal foi destroçada. O resultado não foi o normal — uma retirada da libido desse objeto e um deslocamento da mesma para um novo —, mas algo diferente, para cuja ocorrência várias condições parecem ser necessárias. A catexia objetal provou ter pouco poder de resistência e foi liquidada. Mas a libido livre não foi deslocada para outro objeto; foi retirada para o ego. Ali, contudo, não foi empregada de maneira não especificada, mas serviu para estabelecer uma identificação do ego com o objeto abandonado"ii Essa identificação derivada da melancolia está no centro da constituição sexual dos sujeitos. Ela tem um papel fundamental na estruturação do Édipo e nas possibilidades que têm os seres humanos de lhe superar – o fato de poder se identificar ao pai ou à mãe é na verdade o que possibilita à criança poder abandoná-lo ou abandoná-la como objeto de amor. O investimento (ou catexia) na relação com o outro (relação objetal) resiste à decepção por ele causada e serve para estabelecer uma nova forma de contato com o antigo objeto de amor (pai ou mãe): a identificação. Em O Eu e o Isso (1923), fica mais clara a relação entre identificação e a identidade sexual. Freud afirma que no momento da dissolução do complexo de Édipo, o sujeito (já definido como homem) se encontra diante de duas possibilidades psíquicas: uma identificação com a mãe ou um reforço da identificação com o pai. Esta última "saída" é considerada como a mais "normal" por Freud e é ela que permite que a relação terna à mãe continue. Isso significa que, para Freud, a maioria dos homens se livra do complexo de édipo assumindo uma identidade sexual baseada na identificação com o pai e, conseqüentemente, no amor às mulheres (substitutas da mãe). Judith Butler parte dessa descrição freudiana para interrogar o que ela chama de matriz heterossexual que está na base de nossa cultura ocidental. A explicação a esse termo se encontra em Gender Trouble: «Emprego o termo de matriz heterossexual ao longo deste texto para designar esta grade de inteligibilidade cultural que naturaliza os corpos, os gêneros e os desejos (...); neste modelo[discursivo/epistêmico hegemônico de inteligibilidade do gênero], a existência de um sexo estável é presumida necessária para que os corpos façam corpo e tenham um sentido, um sexo estável
traduzível em um gênero estável (o masculino traduz o macho, o feminimo traduz a fêmea) e que
seja definido como uma oposição hierárquica por um serviço obrigatório: a heterossexualidade."iii Ela deseja compreender o funcionamento do processo melancólico e de que maneira isso que Freud chama de escolha de objeto e ela de gênero surge como conseqüência. Seu ponto de partida é o fato de que a estrutura de luto seja o que inicia as formações do eu que a perda de um objeto amado inicie um movimento do eu na direção de uma instalação deste objeto no interior do eu. Ela afirma, a partir de "Luto e melancolia" e "O Eu e o Isso" que "a perda do outro que desejamos e que amamos é superada por um ato específico de identificação que visa instalar o outro no interior da própria estrutura do eu. (...). Esta identificação não é apenas momentânea ou ocasional, ela se torna uma nova estrutura de identidade."iv Na verdade, Butler questiona as razões pelas quais o garoto, diante de dois objetos possíveis e dessas duas predisposições sexuais, escolha geralmente a heterossexualidade. Ela se pergunta se não haveria uma "angústia da feminização" localizada no centro da escolha da criança pela identificação masculina, antes da angústia da castração pelo pai. Para ela, parece claro que «o que prevalece não é que o desejo carnal heterossexual pela mãe seja punido ou sublimado, mas que o investimento homossexual seja subordinado a uma heterossexualidade culturalmente consagrada"v Ela interroga assim o lugar do interdito do incesto na determinação da escolha de objetos, já que no momento do conflito edipiano, o desejo heterossexual já se realizou: é "natural" que o amor sexual infantil do filho não possa se dirigir ao pai. O que Freud pode dizer da ambivalência e da bissexalidade não serve a convencer Butler de uma maior complexidade da visão psicanalítica sobre a sexuação, ou seja, a convencê-la que a teoria freudiana oferece à homossexualidade uma real possibilidade de
existência no seu discurso. Penso por exemplo na dificuldade que ainda encontro para
responder como psicanalista à sua afirmação de que "a bissexualidade é, para Freud, a
coexistência de dois desejos heterossexuais no seio de uma única e mesma psiquê"vi ? 3. Novas e mais amplas maneiras de se reconfigurar o possível Ao iniciar minha pesquisa de doutorado sobre a sexualidade entre um homem e uma mulher, encontrei no trabalho de Judith Butler uma fonte rica de elaborações que me permitiram repensar o que ela chama de "instabilidades fundamentais ligadas às tentativas de teorização do sexual". Lendo Problemas de Gênero na tradução francesa (‘Trouble dans le genre’), encontrei questionamentos que me pareceram estar no centro do que a psicanálise pode ou deseja definir como campo de exploração teórica – questões como: no fundo, o que é o sexo? Se o gênero é construído, poderia então ser construído de outra maneira? O que faz de um ser humano o que ele é, em termos de sexualidade?

4 Butler dirige tais questionamentos a seus leitores com um objetivo preciso: aumentar o campo dos possíveis em termos de gênero, sem instaurar nenhuma normatização. Como afirma Sarah Salih, autora de The Judith Butler reader,
" Por possível, Butler quer dizer possivelmente humano, configurações possíveis do mundo social e modos possíveis de fazer. Na verdade, ela não nos pede nada menos que a
transformação do mundo social tal como ele é constituído atualmente, já que é um lugar onde as respostas à questão ‘o que é um humano’ vêm muito facilmente, e onde a definição da diferença ocasiona invariavelmente a violência da exclusão."vii Essa idéia de complexificar a resposta à questão ‘o que é um humano’ me pareceu uma posição teórica que poderia se aproximar de minhas próprias reflexões sobre o masculino, o feminino e seu aspecto construído. Decidi então estabelecer um diálogo entre o que ela pode pensar da construção da identidade sexual no sentido de uma desnaturalização e o que esses mesmos termos – construção, identidade sexual e desnaturalização – representam para mim numa compreensão psicanalítica desta problemática. Butler afirma ter escrito Gender Trouble para "fazer uma crítica de uma presunção de heterossexualidade difundida na teoria literária feminista". Ela estava particularmente sensível às novas formas de hierarquia e de exclusão criadas por um certo discurso feminista que limita as significações do gênero à idéias recebidas sobre a masculinidade e a feminilidade, conduzindo aqueles e aquelas que o seguem à homofobia. Essa critica se elabora a partir de um novo espaço de teoria , entre os cultural studies e a teoria crítica, ou seja à partir "deste lugar onde a teoria emerge no cruzamento de horizontes
culturais". Existe em seu trabalho uma necessidade de "tocar nos temas" sociais, culturais e
sexuais de maneira direta, já que "a teoria não é nunca simplesmente theoria, no sentido de
contemplação desengajada (...). Ela é sempre plenamente política" viii. A princípio, um tal
posicionamento me pareceu dificilmente compatível com a preocupação psicanalítica, que
tende a uma discussão em termos do particular e do subjetivo. Mas depois percebi que essa
complicação teórica me permitiria definir meu objeto de estudo – a sexualidade entre um
homem e uma mulher – como tendo uma dimensão ligada à identidade(referente à constituição
social do sujeito, ou ao olhar do outro sobre si) e uma dimensão ligada às identificações
(pensadas dentro da teoria psicanalítica e referentes ao modo como o sujeito se estrutura a
partir das relações pré-edípicas e edípicas com seus pais). 4. Considerações Finais Em sua conclusão de Problemas de Gênero, Butler afirma que a tarefa maior do feminismo não deveria ser a de tentar estabelecer um ponto de vista exterior às identidades construídas – tarefa impossível que implicaria imaginar que o discurso feminista não se submete à "localização cultural" analisada em Gender Trouble -, mas sim a de perceber e sinalizar as estratégias de repetição subversiva permitidas pela idéia da construção das identidades sexuais. Em outras palavras, seria a tarefa maior do feminismo demarcar de dentro dos discursos existentes sobre as identidades sexuais as possibilidades que têm os homens e as mulheres de agir, pensar e existir de novas maneiras, guardando sempre e preciosamente a possibilidade de contestá-las.
Acredito que a psicanálise possa se propor uma tarefa similar: olhar para seus discursos
sobre a identidade sexual e deles extrair maneiras de aumentar o campo dos possíveis de
maneira crítica e subversiva. Ao entrar em contato com a teoria sempre plenamente política de
Butler, transformo meu discurso alinhavado nas escolas de psicanálise para nele acomodar
novas questões sobre a construção da sexualidade e do que é sexual. Essa acomodação inclui
reflexões sobre a homoparentalidade e o transsexualismo, entre outras. Ao mesmo tempo,
sirvo-me dos questionamentos apresentados em Gender Trouble para reforçar posições que já
tinha como psicanalista e que continuam me sendo úteis – como a distinção entre identidade e
identificação, por exemplo, ou a possibilidade de pensar em patologias do sexual. Em minha experiência como psicanalista e pesquisadora, acompanho atentamente os diálogos que se estabelecem entre estudiosos do gênero e de questões ligadas à identidade sexual. Tais diálogos não se estabelecem sem ruídos. Recentemente, ouvi do sociólogo Eric Fassin – que anima um seminário com o psicanalista Michel Tort sobre sexualidade em Paris - que há uma recuperação das questões de gênero pela academia francesa. Como conseqüência, surge uma produção de conhecimento que por vezes parece muito acadêmica e não suficientemente política e por vezes excessivamente política e não suficientemente acadêmica. Mas é neste desacordo de interesses – militantismo político e academicismo – que vejo a possibilidade de discutir as relações entre, por exemplo, psicanálise e política no tocante às questões de gênero. No que pode parecer uma discussão entre paradoxos, entre um discurso que não pretende expressar uma visão de mundo e um outro que não permite a contemplação desengajada, vislumbro a possibilidade do surgimento de novos saberes. Um tal conhecimento, que começa a se desenhar em minha pesquisa, se empenha em atender às demandas clínicas daqueles que procuram a psicanálise ao mesmo tempo que renova a teoria psicanalítica que conheço, trazendo-lhe mais tolerância e aumentando sua potência crítica
http://www.youtube.com/watch?v=YbY27xkl91w




Tuesday, June 26, 2007

entrevista Zygmunt Bauman 26/06/07

ZYGMUNT BAUMAN, sociólogo polonês, iniciou sua carreira na Universidade de Varsóvia, onde teve artigos e livros censurados e em 1968 foi afastado da universidade. Logo em seguida emigrou da Polônia, reconstruindo sua carreira no Canadá, Estados Unidos e Austrália, até chegar à Grã-Bretanha, onde em 1971 se tornou professor titular da Universidade de Leeds, cargo que ocupou por vinte anos. Responsável por uma prodigiosa produção intelectual, recebeu os prêmios Amalfi (em 1989, por sua obra Modernidade e Holocausto) e Adorno (em 1998, pelo conjunto de sua obra). Atualmente é professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia. Tem mais de dez obras publicadas no Brasil por Jorge Zahar Editor, todas elas de grande sucesso, dentre as quais podemos destacar Amor Líquido, Globalização: as conseqüências humanas e Vidas Desperdiçadas.
Seu livro "Amor líquido" é um sucesso comercial no Brasil. Na sua opinião, por que as pessoas têm se interessado tanto pelo assunto? Por que a idéia de durabilidade das relações amorosas nos assusta tanto?ZYGMUNT BAUMAN: As relações amorosas estão hoje entre os dilemas mais penosos com que precisamos nos confrontar e solucionar. Nestes tempos líquidos, precisamos da ajuda de um companheiro leal, "até que a morte nos separe", mais do que em qualquer outra época. Mas qualquer coisa "até a morte" nos desanima e assusta: não se pode permitir que coisas ou pessoas sejam impedimentos ou nos obriguem a diminuir o ritmo de vida. Compromissos de tempo indeterminado ameaçam frustrar e atrapalhar as mudanças que um futuro desconhecido e imprevisível pode exigir. Mas, sem esse compromisso e a disposição para o auto-sacrifício em prol do parceiro, não se pode pensar no amor verdadeiro. De fato, é uma contradição sem solução. A esperança ainda que falsa é que a quantidade poderia compensar a qualidade: se cada relacionamento é frágil, então vamos ter tantos relacionamentos quanto forem possíveis.
O senhor está casado com a mesma mulher há 56 anos (a também socióloga Janina). Há segredo para uma união duradoura em tempos de "amor líquido", em que os parceiros são descartados de acordo com a sua funcionalidade?BAUMAN: Quanto mais fácil se torna terminar relacionamentos, menos motivação existe para se negociar ou buscar vencer as dificuldades que qualquer parceria sofre, ocasionalmente. Afinal, quando os parceiros se encontram, cada um traz a sua biografia, que precisa ser conciliada, e não se pode pensar em conciliação sem fazer concessões e auto-sacrifício. Eu e Janina, provavelmente, consideramos isso mais aceitável do que a perspectiva de ficarmos separados um do outro. No fim das contas é uma questão de escolha, do valor que se dá a estar junto com o parceiro e da força do amor, que torna o auto-sacrifício em prol do amado algo natural, doce e prazeroso, em vez de amargo e desanimador.A sociedade fragmentada que o senhor apresenta em "Vidas desperdiçadas" não estimula a individualização e o sentimento de medo ao estranho que foram apresentados em "Amor líquido"?BAUMAN: Claro. Nos comportamos exatamente como o tipo de sociedade apresentada nos "reality shows", como por exemplo, o "Big Brother". A questão da "realidade", como insinuam os programas desse tipo, é que não é preciso fazer algo para "merecer" a exclusão. O que o "reality show" apresenta é o destino e a exclusão é o destino inevitável. A questão não é "se", mas "quem" e "quando". As pessoas não são excluídas porque são más, mas porque outros demonstram ser mais espertos na arte de passar por cima dos outros. Todos são avisados de que não têm capacidade de permanecer porque existe uma cota de exclusão que precisa ser preenchida. É exatamente essa familiaridade que desperta o interesse em massa por esse tipo de programa. Muitos de nós adotamos e tentamos seguir a mensagem contida no lema do programa "Survivor": "não confie em ninguém!" Um slogan como esse não prediz muito bem o futuro das amizades e parcerias humanas.Em "Vidas desperdiçadas" o senhor menciona a questão criada por "imigrantes" em busca de um Estado que os proteja e lhes dê sobrevivência. De que modo os recentes atentados terroristas nos EUA e Europa são uma conseqüência dessa "marginalização" de seres humanos?BAUMAN: A globalização negativa cumpriu sua tarefa. As fronteiras que já foram abertas para a livre circulação de capital, mercadorias e informações não podem ser fechadas para os humanos. Podemos prever que quando e se os atentados terroristas desaparecerem, isso irá acontecer apesar da violência brutal das tropas. O terrorismo só vai diminuir e desaparecer se as raízes sociopolíticas forem eliminadas. E isso vai exigir muito mais tempo e esforço do que uma série de operações militares punitivas. A guerra real e capaz de se vencer contra o terrorismo não é conduzida quando as cidades e vilarejos arruinados do Iraque ou do Afeganistão são devastados, mas quando as dívidas dos países pobres são canceladas, os mercados ricos são abertos à produção dos países pobres e quando as 115 milhões de crianças atualmente sem acesso a nenhuma escola são incluídas em programas de educação.
O que o senhor acha da afirmação de alguns acadêmicos que a globalização acabou e que o momento que vivemos agora é de vácuo pós-globalização?BAUMAN: Não sei o que esses "acadêmicos" têm em mente. Até agora, nossa globalização é totalmente negativa. Todas as sociedades já estão abertas. Não há mais abrigos seguros para se esconder. A "globalização negativa" cumpriu seu papel, mas sua contrapartida "positiva" nem começou a atuar. Esta é a tarefa mais importante em que o nosso século terá que se empenhar. Espero que um dia seja cumprida. É questão de vida ou morte da Humanidade!O que será preciso acontecer para que nossa sociedade se dê conta da armadilha que caiu em busca da suposta "modernidade"?BAUMAN: A civilização moderna não tem tempo nem vontade de refletir sobre a escuridão no fim do túnel. Ela está ocupada resolvendo sucessivos problemas, e principalmente os trazidos pela última ou penúltima tentativa de resolvê-los. O modo com que lidamos com desastres segue a regra de trancar a porta do estábulo quando o cavalo já fugiu e provavelmente já correu para bem longe para ser pego. E o espírito inquieto da modernização garante que haja um número crescente de portas de estábulos que precisam ser trancadas. Ocasiões chocantes como o 11 de Setembro, a tsunami na Ásia, (o furacão) Katrina, deveriam ter servido para nos acordar e fazer agir com sobriedade. Chamar o que aconteceu em Nova Orleans e redondezas de "colapso da lei e ordem" é simplista. Lei e ordem desapareceram como se nunca tivessem existido.O senhor aponta uma "crise aguda da indústria de remoção de refugo humano". É possível criar mecanismos de inclusão dos seres humanos "excessivos" e "redundantes"? A modernização implica, necessariamente, uma "lixeira humana"?BAUMAN: Esse excesso de população precisa ser ajudado a retornar ao convívio social assim que possível. Eles são o "exército reserva da mão-de-obra" e lhes deve ser permitido que voltem à ativa na primeira oportunidade. Os "redundantes" são obrigados a conviver com o resto da sociedade, o que é legitimado pela capacidade de trabalho e consumo. Em vez de permanecer, como era visto anteriormente, como um problema de uma parte separada da população, a designação de "lixo" torna-se a perspectiva potencial de todos. Há partes do mundo que se confrontaram com o antes desconhecido fenômeno de "população sobrando". Os países subdesenvolvidos não se disporiam, como no passado, a receber as sobras de outros povos e nem podem ser forçados a aceitar isso.Países como Brasil, Índia e China são constantemente apontados como estratégicos para o século XXI. Ao mesmo tempo, são três países com grande número de "lixo humano", com alto índice de desemprego. Isso não é uma contradição?BAUMAN: Certamente. Isso fica ainda pior quando os gigantes do século XXI, China, Índia, Brasil, entram no "processo de modernização". O número de "pessoas desnecessárias" crescerá. E aí há o grande problema que mais cedo ou mais tarde teremos que enfrentar: capacitar ou não China, Índia e Brasil a imitar o modelo de "bem-estar" adotado nos Estados Unidos em uma época em que "modernização" ainda era um privilégio de poucos? Para dar vazão, seriam necessários três planetas, mas nós só temos um para dividir.Um dos mais importantes compositores brasileiros, Chico Buarque de Holanda, afirmou que "uma nação grande e forte é perigosa, mas que uma nação grande, forte e ignorante é ainda mais perigosa". Ter uma nação grande, forte e ignorante no comando do mundo como parecem ser os Estados Unidos da Era Bush não pode acirrar ainda mais o "refugo" dos seres humanos?BAUMAN: Lamento não conhecer Chico Buarque: ele toca no cerne da questão. Até onde vai a situação de nosso planeta com um único superpoder, confundido e subjugado pela ilusão de sua repentina ilimitada liberdade? A elevação súbita dos Estados Unidos à posição de superpotência absoluta e uma incontestada hegemonia mundial pegou líderes políticos americanos e formadores de opinião desprevenidos. É muito cedo para declarar a natureza deste novo império e generalizar seu impacto no planeta. Seu comportamento é, possivelmente, o fator mais importante da incerteza definida como "Nova Desordem Mundial". Um império estabelecido pela guerra tem que se manter por guerras. Acabamos de ver isso no Iraque, apesar de todos saberem que era óbvio que bombardear e invadir o país não aniquilaria o terrorismo.No Brasil, temos uma expressão muito popular, "jeitinho brasileiro", que representa a capacidade do povo de superar adversidades, sejam elas pequenos problemas do cotidiano ou não. O senhor acredita que há nações com seres "redundantes" que saibam sobreviver melhor do que outros?BAUMAN: O que vocês chamam de "jeitinho brasileiro" é a maneira que a modernização nos obrigou a reagir. Um dos resultados cruciais da modernização é a dependência dos processos da vida humana pelos "jeitinhos". Isso implica o outro lado da mesma moeda: a vulnerabilidade crescente dos legítimos modos instruídos de viver.Aos 80 anos, sua produção intelectual ainda é grande. O que o motiva a continuar escrevendo?BAUMAN: Pierre Bourdieu ressaltou que o número de personalidades do cenário político que podem compreender e articular expectativas e demandas está encolhendo. Precisamos aumentá-lo, e isso só pode ser feito apresentando problemas e necessidades. O próximo século pode ser o da catástrofe final ou um período no qual um novo acordo entre os intelectuais e as pessoas que representam a Humanidade seja negociado e trazido à tona. Vamos esperar que a escolha entre estes dois futuros ainda seja nossa.Todas suas obras apresentam um cenário bastante pessimista do mundo. Temos razão para acreditar em dias melhores?BAUMAN: Rejeito enfaticamente essa afirmação. Otimistas são pessoas que insistem que o mundo que temos é o melhor possível; os pessimistas são os que suspeitam que os otimistas podem ter razão. Portanto eu não sou nem otimista nem pessimista, porque acredito fortemente que outro mundo, alternativo e quem sabe melhor, seja possível. Acredito que os seres humanos sejam capazes de tornar real essa possibilidade.

Friday, June 22, 2007

Caçador de memórias femininas 22/06/07 oi tia:)li seus livros são foda.os gênios não apareçem na tv..

Mulheres Públicas:Para esclarecer o lugar das mulheres no espaço público, Michelle Perrot, num diálogo com Jean Lebrun, mostra uma política e poética dos lugares. Através de cinco temas - imagens, palavras, lugares, frentes de luta e resistências, aparecem os deslocamentos das fronteiras. Entre o público e o privado, os homens e as mulheres, o político e o pessoal, as divisões se quebram e recompõem uma paisagem. Neste livro, o autor levanta as seguintes questões; qual será a paisagem do século que se anuncia? Que novas partilhas e para qual cidade? Por que, apesar de as mulheres terem adquirido a igualdade civil, a instrução, o salariado e os esportes de alto nível, elas ainda encontram resistência nos três bastiões masculinos - o militar, o político e sobretudo o religioso?

Excluídos da História: Operários, Mulheres e Prisioneiros:Em " Os Excluídos da história" encontraremos operários, mulheres e transgressores da ordem burguesa, configurando um conjunto polissêmico e modelado de forma a ganhar a dimensão de sujeitos da história. A paixão de Perrot pelo belo lhe impõe uma linguagem direta, clara e elegante ao extremo, sem prejuízo do rigor conceitual; revelando verdadeiras lições de como se faz pesquisa, seus textos expõem o arcabouço teórico e os procedimentos da análise. E oferece a oportunidade de conhece-los e avaliá-los.
AS Mulheres e os Silêncios da História:
Michelle Perrot, renomada historiadora contemporânea, sempre preocupada com o tema da mulher nos aspectos históricos, reúne artigos diversos sobre a condição feminina na história. Nesse livro, desvendam-se tanto a engendrada estrutura sociocultural, resistente ao tempo, que submete e mantém as mulheres em silêncio, quanto o movimento feminino de saída da vida unicamente privada para as esferas públicas e uma maior atuação na sociedade.
Quando se fala em história das mulheres, o nome da francesa Michelle Perrot salta como unanimidade. Aos 79 anos, vivendo e trabalhando em Paris, ela mantém-se como referência para estudos acadêmicos e alento para incontáveis ramificações do movimento feminista. Porém, ao contrário das ativistas americanas nos anos 60, Michelle não queimou sutiãs em praça pública. Há meio século dedica-se a um trabalho até silencioso: escavar o tempo, remover camadas de esquecimento e recompor um passado feito de silêncios. Poucos historiadores, como ela, saberiam explicar tão bem as dificuldades dessa recomposição. Começa pelo fato das mulheres terem tido acesso tardio à escrita - ainda hoje sentem-se os efeitos desse atraso. Depois, pela natureza do trabalho doméstico ao qual estiveram restritas as “senhoras” do lar: trabalho duro, em grande parte repetitivo, que some sem deixar vestígios. Fora isso, a História com “h” maiúsculo preferiu registrar a passagem pelo mundo de mulheres notáveis ou excepcionais. Como Catarina de Médici (1519-1589), a soberana sempre lembrada para exemplificar os inconvenientes das mulheres no poder. Não foram, portanto, nada fáceis as pesquisas de Michelle Perrot, que há semanas teve lançado no Brasil seu livro mais recente, Minha História das Mulheres (Editora Contexto) - fruto de relatos seus para o rádio, em programa transmitido pela Radio France Culture. E por que “minha” história? Porque, com meio século de dedicação à (re)descoberta do feminino, Michelle pode fazer as escolhas teóricas que quiser. Neste livro, por exemplo, dedica um capítulo inteiro à análise do cabelo das mulheres ao longo dos tempos. As mechas desgrenhadas das feiticeiras, as madeixas das casadoiras, as cabeças raspadas das condenadas, os fios curtos das garotas da Belle Époque, e por aí vai. Leitura deliciosa. Vale ressaltar um aspecto: Michelle é uma historiadora que sabe olhar e o faz constantemente nas suas decifrações. Tanto que, junto com o colega George Duby, o especialista francês em Idade Média, assinou o clássico Images des Femmes, no qual analisam representações do feminino nas artes. Nesta entrevista ao caderno Aliás, marcando o Mês Internacional da Mulher, Michelle Perrot distancia-se da linguagem libertária das ativistas para se posicionar diante de uma “história sem fim”. Reconhece que o feminismo ajudou-nos a romper um silêncio milenar, mas lamenta que o movimento ainda seja majoritariamente “branco”, saído da classe média e movido por mulheres que chegaram à universidade. E as muitas outras? Argumenta que as feministas pouco sabem sobre o que se passa nas zonas mais “obscuras” do planeta e, por fim, pondera: “Até podemos começar a escrever sobre as africanas. Mas elas próprias é que terão de fazê-lo. As mulheres fazem a história da mesma forma como tomam o próprio destino nas mãos.”


Em seu livro, a senhora pondera que o feminismo deslanchou a partir dos anos 70, quando as mulheres começaram a ocupar as universidades. Mesmo em Paris, terra de Simone de Beauvoir, este é o marco cronológico? Sem dúvida. É a presença das mulheres nos campi que detona o movimento. No começo, com muita hesitação. Quando, em 1973, decidi com duas colegas da universidade (Paris 7 - Jussieu) organizar um curso sobre a história das mulheres, bateu-nos de cara uma dúvida. Como batizar o curso? Pisávamos um território novo, não tínhamos idéia de como aquela iniciativa seria recebida. Então, na dúvida, criamos o seguinte nome: “As mulheres têm uma história?”. Ou seja, o curso, já no seu enunciado, expressava uma indagação. E por que fomos tão cautelosas? Primeiro, porque sequer tínhamos material teórico suficiente para fundamentar as aulas. Segundo, porque vivíamos sob a influência, ainda dominante, do estruturalismo, que via as mulheres como “objetos de troca”. Outro motivo: havia uma tendência nítida no mundo acadêmico de privilegiar a história pública, quando, no caso das mulheres, buscava-se a informação confinada no espaço privado. Por fim, havia a crença inabalável de que a história é feita pelos homens. Até uma feminista como Simone de Beauvoir acreditou nisso. Com tantos obstáculos a vencer, minhas companheiras e eu decidimos que melhor seria apresentar o curso sob a forma de uma pergunta. E qual foi a receptividade?
A boa procura provou que estávamos no caminho certo. Hoje, esse tipo de dúvida não tem mais sentido. O desenvolvimento da história das mulheres, ao longo dos últimos 30 anos, tem sido imenso e se espalha por todo o mundo. Pesquisas, livros, toda essa produção teórica, que ainda é nova, está criando volume, fazendo com que as mulheres se tornem seres mais “familiares”. Porque atravessaram séculos como “desconhecidas”. Hoje estamos conseguindo recompor suas feições, reconstituir seu lugar no mundo, seja ele individual ou coletivo. São evoluções que se processam diante de nós, criando novas compreensões sobre a relação entre os sexos. E, o que é mais notável: o desenvolvimento desta disciplina está se fazendo acompanhar da tomada de consciência das próprias mulheres como portadoras de identidade sexuada. São processos concomitantes. Isso se aplica a mulheres “do outro lado do mundo”, mulheres que ainda hoje vivem em sociedades culturalmente fechadas, submissas a controles sociais e religiosos?
Posso afirmar o seguinte: a construção da história das mulheres depende delas próprias, mesmo que não estejam diretamente vinculadas a isso. O ponto de partida dessa construção pressupõe uma certa autonomia e acesso à cultura. No fundo, as mulheres tomam sua história nas mãos da mesma maneira como tomam seu destino nas mãos. Daí o avanço das ocidentais. Mais emancipadas, elas puderam recuperar uma trajetória. Isso significa que estamos “nem aí” para as mulheres de outras partes do mundo? Desprezamos tudo o que não seja nosso? Não é isso, porém, honestamente, não poderemos substituir as mulheres africanas na construção de sua história. Seria como colonizá-las de novo. Em compensação, é impossível não ver hoje o desejo vivo de história que as japonesas e indianas têm. São mulheres ligadas a grupos feministas, centros de pesquisa, universidades, enfim, estão escrevendo muito. Para construir a própria história, as africanas precisam adotar uma perspectiva feminista? Uma certa consciência feminista é necessária para iniciar a alavancagem do processo, porque vai ajudar na hora de contestar o “inquestionável” e na fase de romper o silêncio. Tem sido assim. É na agitação do movimento de mulheres que brota aquela vontade de escrever sobre nosso passado e presente. Agora, veja bem: essa consciência é necessária, porém insuficiente. Erguer o edifício da história nos impõe regras. Marc Bloch fala muito do “métier” do historiador e suas exigências. Começa que não somos proprietários de algo que pertence a todos. Já se disse que, por sair do campo privado, onde reinam as “miudezas” da vida, a história das mulheres seria uma espécie de infra-história que atravessa as sociedades. Concorda com tal visão? Durante muito tempo, mulheres estiveram confinadas às sombras da vida privada. É em lugares escondidos que nós, historiadores, vamos buscá-las primordialmente. Daí o esforço em penetrar zonas isoladas, em buscar fontes de informação de caráter íntimo, como cartas e diários.Também dedicamos especial atenção aos gestos e cenários do cotidiano. O quarto, a cozinha, os conflitos em família, os costumes do dia-a-dia… Essa maneira de lidar com as coisas nos enriquece de saberes. Leva-nos a uma história das gentes, incluindo a dos homens. Pensadores importantes e colegas seus, como Eric Hobsbawn e Perry Anderson, manifestam-se com grande entusiasmo sobre o movimento das mulheres. Chegam a dizer que resultou na transformação social mais importante do século passado. Então, por que o feminismo ainda é malvisto ou, no limite, visto com reservas?

Embora Hobsbawn e Anderson se manifestem com animação, será que eles acreditam mesmo nisso? Será que estãoconvencidos? Eu tenho lá minhas dúvidas. Entre muitos historiadores de viés marxista persiste a idéia de que o movimento feminista esbarra em impasses insuperáveis. E ficam se questionando: é possível substituir classe por sexo? Não saem do lugar. Mesmo entre aliados das mulheres, há um certo mal-estar. Caso de Pierre Bourdieu, um dos primeiros intelectuais a falar da “dominação masculina”. A verdade é que a contestação feminista não é fácil de entender, muito menos de aceitar. Nem para os homens, muito menos para aquelas mulheres que só sabem jogar no campo da sedução. São pessoas que preferem rotular as feministas de feias, virilizadas, sem graça. Por isso fico particularmente feliz quando encontro uma jovem bonita, dizendo-se feminista. Dançando, rindo e dizendo-se feminista, como acontecia naqueles anos 70. Isso está ficando raro…O feminismo envelheceu? Concordo, está mais raro. Mas a questão não é exatamente se o movimento envelheceu. Observo hoje garotas de 20 anos, estudantes, que fazem indagações do tipo: “Feminista? Eu? Por que teria de ser?” Como se quisessem dizer: a causa já foi incorporada, tudo isso é uma evidência. Ainda que Beauvoir tenha sido uma pioneira, com a obra “O Segundo Sexo”, de 1949, hoje o que se vê é que os “womens’s studies” prosperaram muito mais nos EUA que na Europa. Sem dúvida. O feminismo anglo-americano é rico de escritoras: Betty Friedan, Sheila Rowbotham, Denise Riley, Judith Butler…elas produziram textos muito importantes. Entre as historiadoras, eu poderia lembrar Natalie Zemon Davis, Joan Scotth, Lynn Hunt. São particularmente conhecidas na França, onde gozam do reconhecimento da comunidade acadêmica. Mas essa produção teórica, ou boa parte dela, ainda precisa sair do gueto. Precisa circular em livros que falem a um público mais expressivo que o dos círculos feministas. A história das mulheres deveria irrigar todo um campo do saber, funcionando como elemento essencial de intelegibilidade. Feminismo é contracultura? Há, na França, e sem dúvida em muitos outros lugares, diferentes tipos de feminismo. Há o “feminismo da diferença”, que insiste na alteridade das mulheres, muito ligado à questão do corpo. Há o feminismo mais universalista, que teme esse “fechamento” na tese da diferença. Ele está voltado para as possibilidades da democracia, portanto, não quer para si o carimbo da contracultura. Agora, o feminismo da diferença e mesmo a experiência cotidiana das mulheres podem servir de elementos para uma contracultura. Para que lado vai a nau feminista? Acho que estamos em condições de encontrar uma terceira via, um feminismo de reconciliação, que seja ao mesmo tempo universal e alternativo. As mulheres trabalham mais, estudam mais, ocupam espaços, estão mais independentes, porém, as desigualdades persistem. O masculino ainda é o eixo que organiza a pós-modernidade? Apesar de todo o “progresso” feminino, as desigualdades persistem em todos os domínios, especialmente no que concerne à decisão política e econômica. A hierarquia dos sexos, que rege a organização das sociedades desde a “noite dos tempos”, lembrando aqui expressão da antropóloga Françoise Héritier, não só persiste como não poderá ser abolida rapidamente. É uma transformação de longa duração, um desafio que não se conquista assim, de um momento para o outro, até porque se desdobra em transformações práticas e simbólicas. Como a divisão do trabalho doméstico. O fundamentalismo, crescente no mundo, pode fazer o movimento das mulheres recuar, mesmo no Ocidente? Existe o fundamento religioso, mas também existe o laico. E ambos constituem uma das ameaças mais fortes às mulheres nos dias que correm. Fundamentalismos reafirmam, com muita força, a hierarquia sexual, hierarquia que passa a ser entendida como a expressão da vontade de Deus, enraizada na natureza que “Ele” criou. Isso estimula a multiplicação das mulheres submissas, invisíveis e dominadas em seu amedrontamento progressivo. O véu é apenas o símbolo mais evidente. O fundamentalismo já se instalou no coração da Europa secular: enquanto os católicos contestam agressivamente o direito ao abortamento, os islâmicos fazem questão de cobrir a cabeça de suas filhas, que continuam casando cedo, contra a própria vontade. E os assassinatos classificados como “crimes de honra” proliferam. A prostituição também avança em vários pontos do globo, envolvendo meninas. O que é isso? Pauperização das mulheres ou reafirmação da chamada “necessidade sexual masculina”, que é uma idéia discutida em livros seus? A pobreza continua sendo, de longe, o propulsor da prostituição. É a engrenagem perversa que explora a miséria e as carências das mulheres. Na França, os usuários desse sistema têm olhado muito para a Europa do Leste e países da África. Há também fluxos migratórios de homens solteiros que vêm para a Europa e vão saciar seu “irrepreensível apetite sexual” com prostitutas. São fenômenos de massa. Por outro lado, a prostituição de luxo, a das call girls, é uma atividade econômica de livre escolha, que vem diminuindo.
A impressão que se tem é que o feminismo continua sendo um movimento de mulheres brancas, com estudo e majoritariamente vindas da classe média. Mesmo o feminismo brasileiro, elogiado pela senhora, parece conhecer pouco a vida da mulher na favela, da mulher com filho ou marido no presídio ou da garota negra do movimento hip-hop. É verdade, as articulações feministas no Brasil têm muito vigor. Quanto ao feminismo, de modo geral, ele ainda diz respeito sobretudo às mulheres brancas, das camadas médias da sociedade. Isso fica muito evidente na América Latina, onde as divisões sociais são mais acentuadas que na Europa ou nos EUA. Mas, aqui na França, observo que o feminismo de classe média penetrou no meio popular de diversas formas: na vontade que as mulheres de baixa renda manifestam em ter acesso à contracepção, no seu desejo de autonomia, na afirmação visual das garotas da periferia, na garra que elas têm de estudar e nos recorrentes protestos contra a violência doméstica. Existe até um movimento nos banlieues cujo slogan é “ni putes, ni soumises” (nem putas, nem submissas). E o que ele defende, afinal? O direito à independência, liberdade e instrução escolar. Na África, o movimento vai desbravando grotões em sua campanha contra a mutilação genital e na cobrança por programas de proteção contra a Aids. Dito de outra forma: as idéias e os comportamentos feministas estão sendo difundidos e exercem um poder de atração sobre mulheres desfavorecidas. Agora, dou-lhe razão. Tenho consciência de pertencer a um meio privilegiado e protegido, que ainda desconhece outras realidades sociais e étnicas. Modestamente, tenho que consentir nisso. Como diminuir esse vão histórico? Pois é, nossa ignorância sobre as africanas é imensa. Inclusive porque a história delas não está escrita. Ou o que se tem é muito pouco. Sobretudo na última década, os estudos avançam na medida em que pesquisadoras africanas chegam às universidades. Tenho conferido isso na minha própria universidade, em Paris, onde antes só havia o departamento “Terceiro Mundo”. Hoje não só este nome caiu por terra, como mais e mais vejo mulheres vindas da África. Ainda temos poucas teses acadêmicas, poucos livros, porém as africanas vão alcançando estruturas de poder - seja na universidade, na administração pública, na política. Estas pioneiras estão jogando um papel decisivo na transformação de realidades. Evidentemente, se começo a pensar no genocídio em Ruanda, sou forçada a admitir: o progresso delas ainda é irrisório. A partir de 1994, com a Conferência de População e Desenvolvimento do Cairo, da ONU, a saúde reprodutiva ganhou papel central na agenda feminista- contracepção, aborto, planejamento familiar. É hora de atualizar a agenda? Toda agenda social precisa ser atualizada em função dos problemas que surgem e das soluções que se encontram. Acho que hoje o combate à Aids está mais desafiador do que nunca, mesmo que o acesso a medicamentos tenha aliviado a situação em alguns lugares. E o desafio maior permanece: como as mulheres podem ter domínio sobre a informação, em matéria de sexualidade? Uma mulher socialista, Ségolène Royal, tem chances de vitória nas eleições presidenciais francesas. Hillary Clinton, senadora democrata, tenta o mesmo nos EUA. Cresce timidamente o diminuto clube das chefes de Estado. A conquista do poder político poderá ser um marco na história das mulheres no século 21? A candidatura de Ségolène já causou um impacto considerável na sociedade francesa. Pela primeira vez, aqui, uma mulher ousa dizer: eu quero ser presidente da República. A França é um país onde a política, há muito tempo, é território masculino. As francesas só conseguiram o direito ao voto em 1944, quando apenas as gregas ainda não tinham conseguido!


Como está hoje a representação política das francesas?
Somos ainda 13% do Parlamento, embora haja uma lei de paridade. Durante muito tempo pensou-se que política é assunto de homem. E que as mulheres têm coisas mais doces a fazer. Então, a ambição de Ségolène é nova. Esta mulher conseguiu se impor no Partido Socialista e aparece como uma candidata com credibilidade e competência. Alguém que pode melhorar a segurança na perspectiva da “ordem justa”. Combinar proteção social com crescimento econômico. Aperfeiçoar a democracia participativa e até modernizar o socialismo. Isso é o que Ségolène pode fazer. Se vai conseguir ou não, é outra história. Primeiro porque hoje a esquerda é minoritária na França. Depois, porque reflexos machistas poderão se fazer sentir. Hillary também tem chances. E obstáculos. De qualquer forma, começamos a provar o sentimento de que é chegado o nosso tempo na política. A família está mudando. Homens e mulheres casam, separam, casam de novo. Experimentam novos papéis dentro de casa. Técnicas de reprodução mudam o panorama da concepção e fertilidade. Casais gays vão sendo assimilados em termos sociais e jurídicos. Enfim, o próximo capítulo do feminismo será escrito no espaço privado?
Não tenho dúvida. O casamento já não é a instituição pesada de outros tempos. Sexo e procriação são processos dissociados, e tudo começou com o controle feminino da contracepção que, a meu ver, foi a grande revolução do século 20. Mas as desigualdades estão aí. O trabalho doméstico, incluindo cuidados com os filhos, ainda sobra para as mães. Vemos, com estupor, tantas mulheres agredidas. Cresce o número de famílias mantidas integralmente por mulheres empobrecidas. Nem a participação no espaço público nem mesmo a lei garantem que, dentro de casa, as coisas estejam resolvidas. Mudar práticas e costumes cotidianos é o mais difícil. Quero terminar citando o filósofo francês Charler Fourier, um socialista utópico do século 19. Ele dizia que a “casa” é o verdadeiro lugar do poder. E sonhava com um outro espaço, o Nouveau Monde Amoureux, título de um de seus livros. Francamente, este mundo ainda está por ser inventado.

http://www.youtube.com/watch?v=wFoMfoQSCh8



Wednesday, June 20, 2007

trecho do livro O Império Americano - Hegemonia ou Sobrevivência.de Chomsky.20/06/07

Capítulo I - Prioridades e PerspectivasAlguns anos atrás, um dos grandes nomes da biologia contemporânea, Ernst Mayr, publicou algumas reflexões sobre as chances de sucesso na busca de inteligências extraterrestres. Para ele, essa probabilidade era remota. Suas conclusões tinham a ver com o sentido adaptativo do que chamamos "inteligência superior", ou seja, a forma especificamente humana de organização intelectual. Mayr estimou o número de espécies desde a origem da vida em cerca de cinqüenta bilhões, uma única das quais "atingira o tipo de inteligência necessária a gerar uma civilização." Isso ocorreu em passado bem recente, há cerca de cem mil anos. Costuma-se supor que apenas um pequeno grupo tenha sobrevivido, do qual somos todos descendentes.Mayr especulou que a forma humana de organização intelectual talvez não se deva à seleção. A história da vida na Terra, escreveu, contradiz a afirmação de que "é melhor ser inteligente do que burro", ao menos a julgar pelo sucesso biológico de besouros e bactérias, por exemplo, muito mais bem-sucedidos do que os humanos em termos de sobrevivência. Ele acrescentou, ainda, o sombrio comentário: "a expectativa média de vida de uma espécie é de cerca de cem mil anos".

Estamos entrando em um período na história humana que talvez possa esclarecer se é melhor ser inteligente do que burro. A perspectiva mais otimista é a de que a pergunta não seja respondida: se houver uma resposta definitiva, ela só poderá ser a de que os humanos resultaram de algum tipo de "equívoco biológico", usando os cem mil anos que lhes foram reservados para destruir uns aos outros e, nesse processo, muitas coisas mais.Sem dúvida, a espécie desenvolveu a capacidade para fazer precisamente isso, e um hipotético observador extraterrestre poderia concluir que os humanos demonstraram tal capacidade ao longo da história, dramaticamente nas últimas centenas de anos, agredindo o meio-ambiente que sustenta a vida, a diversidade de organismos mais complexos, e com selvageria fria e calculada, também uns aos outros.

AS DUAS SUPERPOTÊNCIAS O ano de 2003 começou com várias indicações de que os temores acerca da sobrevivência humana são bastante realistas. Para mencionar apenas alguns exemplos, no início do outono de 2002, descobriu-se que uma guerra nuclear, possivelmente terminal, por pouco não acontecera, quarenta anos atrás. Logo após essa descoberta chocante, o governo Bush barrou os esforços da ONU para banir a militarização espacial, uma grave ameaça à sobrevivência. O governo igualmente suspendeu as negociações internacionais para impedir armas biológicas e tratou de garantir a inevitabilidade de um ataque ao Iraque, apesar da oposição popular sem precedentes históricos.Organizações de assistência com vasta experiência no Iraque e estudos desenvolvidos por organizações médicas respeitadas advertiram que a invasão planejada poderia provocar uma catástrofe humanitária. As advertências foram ignoradas por Washington e pouco interesse despertaram na mídia. Uma força-tarefa americana de alto nível concluiu que é "provável" a ocorrência de ataques com armas de destruição em massa (WMDs) dentro dos Estados Unidos, probabilidade essa que aumentaria no caso de uma guerra com o Iraque. Vários especialistas e agências de inteligência se pronunciaram na mesma linha, acrescentando que a beligerância de Washington — e não apenas com relação ao Iraque — vinha fazendo crescer a velha ameaça do terrorismo internacional e da proliferação das armas de destruição em massa. Todas essas advertências foram ignoradas.Em setembro de 2002, o governo Bush anunciou sua Estratégia de Segurança Nacional, que declarava ser seu direito recorrer à força para eliminar qualquer ameaça detectada contra a hegemonia global americana, prevista para ser permanente. A nova grandiosa estratégia causou preocupação no mundo todo, inclusive nos peritos em política externa nacionais. Também em setembro, foi lançada uma campanha de propaganda para pintar Saddam Hussein como uma ameaça iminente aos Estados Unidos, insinuando que ele fora responsável pelas atrocidades de 11 de setembro e que planejava outras.
A campanha, programada para coincidir com as eleições de meio de mandato para o Congresso, atingiu em cheio seu alvo. Em pouco tempo, a opinião pública americana tomou direção diversa da opinião pública global, auxiliando o governo a alcançar seus objetivos eleitorais e transformar o Iraque em teste válido para a recém-anunciada doutrina de recorrer à força quando lhe convier.O presidente Bush e seus colegas também continuaram sabotando os esforços internacionais para reduzir as ameaças ao meio-ambiente que são reconhecidamente graves, com pretextos que mal disfarçavam sua dedicação a setores restritos do poder privado. O Programa Científico de Alteração Climática (CCSP) do governo, observou o editor Donald Kennedy da revista Science, é uma paródia que "não inclui qualquer recomendação sobre limitação de emissões (de poluentes)1 ou outras formas de minimização (das conseqüências)2", contentando-se com "metas voluntárias de redução, que, ainda que cumpridas, não impediriam o crescimento das taxas de emissão americanas em cerca de 14% a cada década." O CCSP sequer considerou a possibilidade, sugerida por "um crescente número de indícios", de que o aquecimento global a curto prazo por ele ignorado "detonará um abrupto processo não-linear", produzindo drásticas mudanças de temperatura capazes de gerar enormes riscos para os Estados Unidos, a Europa e outras zonas temperadas. "A postura insolente quanto à cooperação multilateral para solução do problema do aquecimento global" do governo Bush, acrescentou Kennedy, foi "o ponto de partida do longo e contínuo processo de erosão das relações com a Europa", que levou a um "ressentimento latente".Em outubro de 2002, já era difícil ignorar o fato de que o mundo estava "mais preocupado com o uso desenfreado do poder americano do que... com a ameaça representada por Saddam Hussein", e "tão decidido a limitar o poder do gigante quanto... a privar o tirano de suas armas." A preocupação mundial aumentou nos meses seguintes, quando o gigante deixou claro seu intento de atacar o Iraque, ainda que as inspeções da ONU, relutantemente toleradas por ele, não tivessem conseguido revelar armas para lhe servirem de pretexto. Em dezembro, as pesquisas internacionais demonstraram que, fora dos Estados Unidos, o apoio aos planos de guerra de Washington mal chegava a 10%. Dois meses mais tarde, depois de enormes protestos no mundo todo, a imprensa concluiu que "talvez ainda existam duas superpotências no planeta: os Estados Unidos e a opinião pública mundial" ("os Estados Unidos" aqui entendido como o poder estatal, não a opinião pública ou mesmo a da elite americana).Estudos revelaram, no início de 2003, que o medo inspirado pelos Estados Unidos atingira picos impressionantes no mundo todo, juntamente com a desconfiança em sua liderança política. O menosprezo pelas necessidades e direitos humanos elementares combinava-se a uma demonstração de desdém pela democracia para o que não é fácil achar paralelos, tudo isso acompanhado de discursos abundantes em promessas de devoção aos direitos humanos e à democracia. O que se seguiu deve ser profundamente inquietante para todos aqueles que se preocupam com o mundo que deixarão para seus netos.Embora os estrategistas de Bush se encontrem em um ponto extremo do espectro político americano tradicional, seus programas e doutrinas têm vários precursores, tanto na história dos Estados Unidos quanto entre aspirantes anteriores ao poder global. Mais sinistro ainda é o fato de que suas decisões podem não ser irracionais no âmbito da ideologia corrente e das instituições que a encarnam. Não faltam precedentes históricos de líderes dispostos a ameaçar ou usar de violência frente a significativos riscos de catástrofe. Hoje, porém, o perigo é bem maior. A escolha entre hegemonia e sobrevivência poucas vezes foi exposta de forma tão evidente — se é que algum dia realmente o foi.Tentemos desenrolar alguns dos muitos fios que se entrelaçam nessa complexa trama, focando nossa atenção na potência mundial que proclama sua hegemonia global. Suas ações e doutrinas norteadoras devem ser a principal preocupação de qualquer ser deste planeta, principalmente, é óbvio, dos cidadãos americanos. Muitos gozam de vantagens e de uma liberdade incomuns, o que os capacita a moldar o futuro, devendo encarar com cuidado as responsabilidades diretamente decorrentes de tal privilégio

















Darfur? É o petróleo, estúpido..China e EUA em nova guerra fria 20/06/07

texto de F. William Engdahl. Para parafrasear a famosa piada durante os debates presidenciais dos EUA, em 1992, quando um desconhecido William Jefferson Clinton disse ao presidente daquela época, George Herbert Walker Bush: “É a economia, estúpido”, a preocupação do atual governo, em Washington, por Darfur, no sul de Sudão, não é, se a olhamos mais de perto, uma genuína preocupação com o genocídio das populações naquela parte mais pobre de uma parte pobre de uma desamparada região da África.Não. “É o petróleo, estúpido.”Trata-se de uma história de dimensão cínica apropriada para um governo em Washington que não mostra consideração por seu próprio genocídio no Iraque, quando o assunto envolve o controle sobre importantes reservas de petróleo. O que está em jogo na batalha por Darfur? O controle sobre o petróleo, muito, muitíssimo petróleo.O caso de Darfur, um proibido pedaço de terra ressecada pelo sol na parte sul do Sudão, ilustra a nova Guerra Fria pelo petróleo, na qual o dramático aumento da demanda de petróleo na China, para alimentar seu explosivo crescimento, levou Pequim a embarcar em uma política agressiva de – ironicamente – diplomacia do dólar. Com seus mais de US$ 1,3 trilhões em reservas, principalmente em dólares americanos, no Peoples’ National Bank of China, Pequim está empreendendo uma ativa geopolítica de petróleo. A África é um centro importante, e na África, a região central entre o Sudão e o Chade é a prioridade. Isto define uma importante nova frente que representa, desde a invasão do Iraque pelos EUA, em 2003, uma nova Guerra Fria entre Washington e Pequim pelo controle de importantes fontes de petróleo. Até agora, Pequim jogou suas cartas com um pouco mais de esperteza que Washington. Darfur é o mais importante campo de batalha nessa competição pelo controle do petróleo, em que há muito em jogo.A diplomacia petrolífera chinesa
Nos últimos meses, Pequim lançou uma série de iniciativas orientadas a assegurar fontes de matérias-primas a longo prazo em uma das regiões melhor dotadas do planeta – o subcontinente africano. Nenhuma matéria-prima tem, no presente, prioridade maior em Pequim que a garantia de fontes de petróleo no futuro.Calcula-se que, atualmente, a China recebe 30% de seu petróleo cru da África. Isso explica uma série extraordinária de iniciativas diplomáticas que enfureceram Washington. A China está utilizando financiamentos em dólares, sem prévias condições, para lograr acesso à vasta riqueza em matérias-primas da África, deixando de lado o típico jogo de controle de Washington, através do Banco Mundial e do FMI. Quem necessita o doloroso remédio do FMI se a China oferece condições fáceis e, além disso, constrói estradas e escolas?Em novembro do ano passado, Pequim foi sede de uma reunião extraordinária de 40 chefes de Estados africanos. Os chineses estenderam, literalmente, o tapete vermelho para os líderes, entre outros, da Argélia, Nigéria, Mali, Angola, República Centro-Africana, Zâmbia, África do Sul.
A China acaba de fechar um acordo petrolífero, que vincula a República Popular da China com as duas maiores nações do continente – a Nigéria e a África do Sul. A CNPC [sigla em inglês da Corporação Nacional Petrolífera da China] obterá petróleo na Nigéria, através de um consórcio que também inclui a South African Petroleum Co., dando à China o acesso que poderia atingir 175.000 barris ao dia em 2008. É um acordo de US$ 2,27 bilhões com a Nigéria, que oferece à CNPC, controlada pelo Estado, uma participação de 45% em um grande campo petrolífero off-shore. Previamente, a Nigéria foi considerada em Washington como um ativo das principais empresas petrolíferas anglo-americanas, ExxonMobil, Shell e Chevron.A China foi generosa na outorga de empréstimos a taxas de juros reduzidos, sem juros ou em concessões diretas a alguns dos países devedores mais pobres da África. Os empréstimos foram destinados à infra-estrutura, incluindo estradas, hospitais e escolas, em agudo contraste com a brutal austeridade das exigências do FMI e do Banco Mundial. Em 2006, a China destinou mais de US$ 8 bilhões para a Nigéria, Angola e Moçambique, contra US$ 2,3 bilhões do Banco Mundial destinados a toda a África Sub-Saariana. Gana está negociando um empréstimo para a eletrificação de US$ 1,2 bilhão com a China. Diferentemente do Banco Mundial, de fato um braço da política econômica externa dos EUA, a China é sagaz ao não condicionar seus empréstimos.Essa diplomacia chinesa relacionada com o petróleo levou a uma bizarra acusação, partida de Washington, de que Pequim trata de “assegurar petróleo nas fontes,” algo que caracterizou a política exterior de Washington há um século pelo menos.Nenhuma fonte de petróleo, ultimamente, esteve mais na mira do conflito petrolífero China-EUA que o Sudão, onde se encontra Darfur.


(Crianças soldados, Akobo, Sul-Sudão, Julho 2006.)Riquezas petrolíferas de Sudão:A CNPC de Pequim é a maior investidora estrangeira no Sudão, com cerca de cinco bilhões de dólares aplicados no desenvolvimento de campos petrolíferos. Desde 1999, a China investiu pelo menos US$ 15 bilhões no Sudão. Possui 50% de uma refinaria de petróleo perto de Cartum em sociedade com o governo sudanês. Os campos petrolíferos estão concentrados no sul, onde ocorre uma guerra civil que ferve em fogo baixo há tempo, financiada pelos EUA, em parte clandestinamente, para separar o sul do norte islâmico centrado em Cartum.A CNPC construiu um oleoduto a partir de seus blocos de concessão 1, 2 e 4 no sul do Sudão, até um novo terminal em Porto Sudão, no Mar Vermelho, de onde o petróleo é embarcado para a China em navios tanques. Oito por cento do petróleo chinês provém agora do sul do Sudão. A China recebe entre 65% e 80% dos 500.000 barris de petróleo por dia produzidos pelo Sudão. Esse país foi, no ano passado, a quarta fonte chinesa de petróleo estrangeiro por seu tamanho. Em 2006, a China ultrapassou o Japão para se converter no segundo importador de petróleo do mundo, depois dos EUA, importando 6,5 milhões de barris do ouro negro por dia. Com o crescimento de sua demanda de petróleo, que se calcula em 30% ao ano, a China ultrapassará os EUA na demanda de importação de petróleo em poucos anos. Essa realidade é o motor que impulsiona a política exterior de Pequim na África. Um olhar sobre as concessões petrolíferas no sul do Sudão mostra que a CNPC chinesa tem direitos sobre o bloco 6, que se estende em Darfur, da fronteira com o Chad e a República Centro-Africana. Em abril de 2005, o governo do Sudão anunciou que havia encontrado petróleo no sul de Darfur, onde se estima que poderá bombear, quando estiver desenvolvido, 500.000 barris por dia. A imprensa mundial esqueceu de mencionar esse fato vital ao informar sobre o conflito de Darfur.
(Rebelles do FUC capturados aquando do malogro do seu ataque contra Ndjaména, a capital do Chade, em Abril de 2006)Uso da acusação de genocídio para militarizar a região petrolífera do SudãoO genocídio foi o tema preferido, e Washington foi o regente da orquestra. Curiosamente, enquanto todos os observadores reconhecem que Darfur sofreu grande um deslocamento das populações e miséria humana, e dezenas de milhares, ou até 300.000 mortes nos últimos anos, somente Washington e as ONGs que lhe são próximas utilizam a incriminadora expressão “genocídio” quando falam de Darfur. Se conseguirem a aceitação popular da acusação de genocídio, abrem a possibilidade para uma drástica intervenção da OTAN dirigida à “mudança de regime” e, de fato, de Washington, nos assuntos soberanos do Sudão.O tema do genocídio é utilizado com um respaldo do porte de Hollywood, por gente como as estrelas pop ao estilo de George Clooney, para orquestrar o caso com vistas à concreta ocupação da região pela OTAN. Até o momento, o governo do Sudão a recusou veementemente, algo que não surpreende.O governo dos EUA utiliza repetidamente a palavra “genocídio” para se referir a Darfur. É o único governo que assim o faz. A secretária-adjunta de Estado dos EUA, Ellen Sauerbrey, à frente do Bureau of Population, Refugees and Migration (Escritório para a População, Refugiados e Migração) disse, durante uma entrevista online da USINFO [Oficina de Programas de Informação Internacional do Departamento de Estado], em 17 de novembro passado: “O contínuo genocídio em Darfur, Sudão – uma ‘brutal violação’ dos direitos humanos – está entre os principais temas internacionais de preocupação para os EUA.” O governo de Bush segue insistindo que o genocídio vem ocorrendo em Darfur desde 2003, apesar de que uma missão da ONU, formada por um panel de seis membros, dirigido pelo juiz italiano Antonio Cassese, informou, em 2004, que não havia sido cometido genocídio em Darfur, mas que ocorreram graves abusos contra os direitos humanos. Os membros do panel defenderam julgamentos por crimes de guerra.Mercadores da morte:Os EUA, atuando através de aliados substitutos no Chade e em estados vizinhos, treinaram e armaram o Exército de Libertação Popular do Sudão (SPLA), dirigido, até sua morte em julho de 2005, por John Garang, preparado na escola das Forças Especiais dos EUA em Fort Benning, Georgia.Ao inundar de armas, primeiro o sul do Sudão, em sua parte oriental, e desde o descobrimento de petróleo em Darfur, também nessa região, Washington avivou o conflito que resultou em dezenas de milhares de mortos e em vários milhões de refugiados obrigados a deixar suas casas. A Eritréia abriga e apóia o SPLA, o grupo NDA [sigla em inglês da Aliança Democrática Nacional] que aglutina a oposição, e os rebeldes da Frente Oriental e de Darfur.Existem dois grupos rebeldes que combatem, na região de Darfur do Sudão, contra o governo central de Cartum, do presidente Omar al-Bashir – o Movimento Justiça pela Igualdade (JEM) e o Exército pela Libertação do Sudão (SLA), o maior dos dois.
Em fevereiro de 2003, o SLA lançou ataques contra posições do governo do Sudão na região de Darfur. O secretário-geral do SLA, Minni Arkou Minnawi, convocou à luta armada, acusando o governo de ignorar Darfur. “O objetivo do SLA é criar um Sudão democrático unido.” Em outras palavras, mudança de regime no Sudão.O Senado dos EUA adotou uma resolução, em fevereiro de 2006, pela qual solicitou tropas da OTAN em Darfur, assim como uma força mais robusta de manutenção de paz da ONU, com mandado firme. Um mês depois, o presidente Bush também pediu forças adicionais da OTAN em Darfur. Ah hã... Genocídio? Ou petróleo?
O Pentágono tem se ocupado com o treinamento de oficiais militares africanos nos EUA, tal como fez com oficiais latino-americanos durante décadas. Seu programa Internacional de Educação Militar e Treinamento (IMET) assegurou o aperfeiçoamento de oficiais militares do Chade, Etiópia, Eritréia, Camarões e da República Centro-Africana, todos países na fronteira com o Sudão. Grande parte das armas que exacerbaram a matança em Darfur e no sul foram levadas por tenebrosos, protegidos, “mercadores da morte” privados, tais como o tristemente célebre antigo agente da KGB, agora com escritórios nos EUA, Victor Bout. Bout foi citado repetidamente nos últimos anos por sua relação com as vendas de armas em toda a África. Estranhamente, os funcionários do governo dos EUA não tocam em suas operações no Texas e na Flórida, apesar de que está na lista de procurados da Interpol por lavagem de dinheiro.A ajuda ao desenvolvimento dos EUA para todo o Sub-Saara, incluindo o Chade, vem sendo reduzida fortemente nos últimos anos, enquanto tem aumentado a ajuda militar. A confusa mistura de petróleo com a escalada por matérias-primas estratégicas é a razão evidente. A região do sul do Sudão, desde o Nilo Superior às fronteiras de Chade, é rica em petróleo. Washington soube disso muito antes que o governo sudanês.
O projeto petrolífero da Chevron em 1974:As principais empresas petrolíferas dos EUA conheciam a riqueza petrolífera do Sudão desde o início dos anos setenta. Em 1979, Jafaar Nimeiry, principal dirigente do Sudão, rompeu com os soviéticos e convidou a Chevron para desenvolver a exploração do petróleo no país. Talvez tenha sido um erro fatal. O embaixador dos EUA, George H.W. Bush, havia informado pessoalmente a Nimeiry sobre fotos tomadas de satélite que indicavam petróleo no Sudão. Nimeiry mordeu o anzol. As guerras pelo petróleo foram a conseqüência desde então.A Chevron encontrou grandes reservas de óleo no sul do Sudão. Gastou US$ 1,2 bilhão em pesquisas e comprovações. Esse petróleo provocou o que chamam de a segunda guerra civil do Sudão, em 1983. A Chevron virou alvo de repetidos ataques e assassinatos, e suspendeu o projeto em 1984. Em 1992, vendeu suas concessões petrolíferas sudanesas. Então a China começou a desenvolver os campos abandonados pela empresa em 1999, com resultados notáveis.Mas, atualmente, a Chevron não está longe de Darfur.
Petróleo do Chade e política de oleodutos:A Chevron de “Condi” Rice está no vizinho Chade, junto com a outra gigante norte-americana do petróleo, a ExxonMobil. Acabam de construir um oleoduto de US$ 3.7 bilhões de dólares, que transporta 160.000 barris de petróleo por dia de Doba, no centro do Chade, próximo do Darfur sudanês, via Camarões, até Kribi, no Oceano Atlântico, com destino às refinarias nos EUA.
Para fazê-lo, trabalharam com o “presidente vitalício” do Chade, Idriss Deby, um déspota corrupto, que foi acusado de entregar armas fornecidas pelos EUA aos rebeldes de Darfur. Deby somou-se à Iniciativa Pan Sahel, de Washington, dirigida pelo Comando Europeu do Pentágono, para treinar suas tropas com o objetivo de combater o “terrorismo islâmico”. A maioria das tribos na região de Darfur são islâmicas.Provido de ajuda militar, treinamento e armas dos EUA, Deby lançou, em 2004, o ataque inicial que provocou o conflito em Darfur, utilizando membros de sua Guarda Presidencial de elite oriundos da província, fornecendo veículos para qualquer terreno, armas e canhões antiaéreos para os rebeldes de Darfur, que combatem o governo de Cartum, no sudoeste do Sudão. Na realidade, o apoio militar dos EUA a Deby foi o detonador para o banho de sangue em Darfur. Cartum reagiu e a debacle resultante foi desatada com toda sua trágica força.As ONGs respaldadas por Washington e o governo dos EUA utilizam o genocídio não demonstrado como um pretexto para terminar levando tropas da ONU e da OTAN para as jazidas petrolíferas de Darfur e do sul do Sudão. O petróleo, não a miséria humana, está por trás do renovado interesse de Washington por Darfur.A campanha pelo “genocídio de Darfur” iniciou em 2003, ao mesmo tempo em que começou a fluir o petróleo pelo oleoduto Chade-Camarões. Os EUA tinham, então, uma base no Chade para conseguir o petróleo de Darfur e, potencialmente, apoderar-se das novas fontes chinesas de petróleo. Darfur é um território estratégico, a cavaleiro do Chade, a República Centro-Africana, o Egito e a Líbia.De acordo com Keith Harman Snow: “Os objetivos militares dos EUA em Darfur – e visto mais amplamente no Chifre da África – são servidos hoje pelo respaldo dos EUA e da OTAN para as tropas da União Africana em Darfur. Lá, a OTAN fornece apoio por terra e nos ares para as tropas da UA, que são qualificadas de “neutras” e de “mantenedoras da paz”. O Sudão está em guerra em três frentes, cada país - Uganda, Chade, e Etiópia – com uma importante presença militar dos EUA e contínuos programas militares norte-americanos. A guerra no Sudão envolve tanto operações clandestinas dos EUA como de facções “rebeldes” treinadas pelos norte-americanos, que chegam do sul do Sudão, Chade, Etiópia e Uganda”.Deby, do Chad , olha a China tambémA conclusão do oleoduto financiado pelos EUA e o Banco Mundial desde o Chade até a costa de Camarões foi planejada como parte de um plano muito mais grandioso de Washington para controlar as riquezas petrolíferas da África Central, do Sudão a todo o Golfo de Guiné.Mas, o comparsa de Washington no passado, o presidente vitalício do Chad, Idriss Deby, começou a mostrar descontentamento com sua pequena participação nos lucros do petróleo controlado pelos EUA. Quando ele e o parlamento do Chade decidiram, no início de 2006, que utilizariam uma maior parte do faturamento do petróleo para financiar operações militares e reforçar seu exército, o novo presidente do Banco Mundial, o arquiteto da guerra no Iraque, Paul Wolfowitz, entrou em ação para suspender os empréstimos ao país. Então, em agosto, depois de que Deby alcançou sua reeleição, criou a própria companhia petrolífera do Chade, a SHT, e ameaçou com a expulsão da Chevron e da Petronas da Malásia por não pagarem dívidas com impostos, e exigiu uma participação de 60% no oleoduto do Chade. Terminou por chegar a um acordo com as companhias petrolíferas, mas ventos de mudança sopraram.



Deby também enfrenta uma crescente oposição interna de um grupo rebelde do Chade, a Frente Unida pela Mudança, conhecida por seu nome francês como FUC, à qual acusa ser secretamente financiada pelo Sudão. Essa região é uma parte muito complexa do mundo da guerra. A FUC tem base em Darfur.No interior dessa situação instável, Pequim surgiu no Chade com um cofre cheio de dinheiro para ajuda. Em fins de janeiro, o presidente chinês, Hu Jintao, visitou oficialmente o Sudão e Camarões, entre outros Estados africanos. Em 2006, os dirigentes chineses visitaram não menos de 48 países africanos. Em agosto de 2006, Pequim recebeu o ministro de Relações Exteriores do Chade para conversações visando reatar os laços diplomáticos formais interrompidos em 1997. A China começou a importar petróleo do Chade, assim como do Sudão. Não é muito petróleo, mas se Pequim seguir o mesmo caminho, isso logo mudará.Em abril deste ano, o ministro de Relações Exteriores do Chade anunciou que as negociações com a China sobre uma maior participação chinesa no desenvolvimento petrolífero do Chade “progrediam bem”. Referiu-se às condições que os chineses pedem para o desenvolvimento petrolífero, qualificando-as como próprias de “sociedades mais igualitárias do que as que estamos acostumados a ter.”A presença econômica chinesa no Chade, ironicamente, poderia resultar mais efetiva em aplacar a luta e o deslocamento das populações em Darfur do que qualquer presença de tropas da União Africana ou da ONU. Isso não seria bem visto por alguns em Washington, ou no quartel-general da Chevron, porque não faria com que o petróleo caísse em suas mãos ensangüentadas e sujas de graxa.Chade e Darfur são somente uma parte do vasto esforço chinês para obter “petróleo na fonte” em toda a África. O petróleo é também o fator primordial na atual política africana dos EUA. O interesse de George W. Bush na África inclui uma nova base dos EUA em São Tomé/Príncipe, a 200 quilômetros do Golfo da Guiné, de onde pode controlar as jazidas petrolíferas de Angola, ao sul do Congo, Gabão, Guiné Equatorial, Camarões e Nigéria. É pura casualidade que sejam as mesmas áreas onde se concentram a recente atividade diplomática e os investimentos chineses.“O petróleo da África Ocidental se converteu em um interesse estratégico nacional para nós,” declarou, em 2002, o secretário-adjunto de Estado para a África, Walter Kansteiner. Darfur e Chade não são mais que uma extensão da política dos EUA no Iraque “por outros meios” – controle do petróleo em todas as partes. A China disputa esse controle “em todas partes,” sobretudo na África. Equivale a uma nova Guerra Fria não declarada pelo petróleo.


Tuesday, June 19, 2007

A potência do pensamento texto de giorgio agamben.19/06/07a unica coisa que importa é a revolução na mente do povo.tu podes,vitória.


http://www.youtube.com/watch?v=SuxspFxKrD0
http://www.youtube.com/watch?v=9NJ5BzyJq7E
RESUMO:O conceito de potência tem, na filosofia ocidental, uma longa história e, pelo menos a partir de Aristóteles, ocupa um lugar central dentro dela. Neste artigo, Giorgio Agamben mostra-nos como Aristóteles procurou confrontar-se exaustivamente com as ambigüidades e as aporias da sua teoria da potência. A figura da potência que ele extrai dessa leitura obriga-nos a repensar não apenas a relação entre a potência e o ato, entre o possível e o real, mas é toda a compreensão do ser vivo que deve ser revogada em questão, se é verdade que a vida deve ser pensada como uma potência que excede incessantemente as suas formas e as suas realizações.
O QUE SIGNIFICA: "EU POSSO"?
O conceito de potência tem, na filosofia ocidental, uma longa história e, pelo menos a partir de Aristóteles, ocupa um lugar central dentro dela. Aristóteles opõe - e, ao mesmo tempo, vincula - a potência (dynamis) ao ato (energeia) e essa oposição, que atravessa tanto a sua metafísica quanto a sua física, foi transmitida por ele como hereditariedade primeiro à filosofia e depois à ciência medieval e moderna. Se decidi falar-lhes do conceito de potência, é porque o meu objetivo não é simplesmente historiográfico. Não se trata, para mim, de dar novamente atualidade a categorias filosóficas há muito caídas no esquecimento; estou convicto, ao contrário, de que esse conceito nunca parou de operar na vida e na história, no pensamento e na práxis daquela parte da humanidade que ampliou e desenvolveu de tal forma a sua "potência", a ponto de impor o seu "poder" a todo o planeta. Antes, seguindo o conselho de Wittgenstein, segundo o qual os problemas filosóficos tornam-se mais claros se os reformulamos como perguntas sobre o significado das palavras, eu poderia enunciar o tema da minha pesquisa como uma tentativa de compreender o significado do sintagma "eu posso". O que pretendemos dizer quando dizemos: "eu posso, eu não posso"?
Na breve introdução à coletânea Requiem, Anna Achmatova conta como aquelas poesias nasceram. Eram os anos da Ezovschina e havia meses a poetisa fazia fila em frente à prisão de Leningrado com a esperança de ter notícias do seu filho, preso por delitos políticos. Junto dela, estavam na fila dezenas de outras mulheres que se reencontravam todos os dias no mesmo lugar. Numa manhã, uma dessas mulheres a reconheceu e lhe fez esta única pergunta: "a senhora pode dizer isto"? Achmatova ficou muda por um instante e depois, sem saber por que, deparou-se com a resposta nos lábios: "sim, eu posso". Perguntei-me muitas vezes o que Achmatova pretendia dizer. Talvez que tivesse um talento poético tão grande, que soubesse manejar com tanta habilidade a linguagem, a ponto de poder descrever aquela experiência tão atroz, tão difícil de dizer? Não acredito, não era isso que ela queria dizer. Chega para todo homem o momento em que ele deve pronunciar este "eu posso", que não se refere a uma certeza nem a uma capacidade específica, e que, no entanto, o compromete e o coloca inteiramente em jogo. Este "eu posso" além de qualquer faculdade e de qualquer savoir-faire, essa afirmação que não significa nada, coloca o sujeito imediatamente diante da experiência talvez, mais exigente - e, no entanto, ineludível - com a qual lhe seja dado medir-se: a experiência da potência.
O QUE É UMA FACULDADE?
"Há, porém, uma aporia: por que não há sensação dos próprios sentidos (ton aistheseon aisthesis)? Por que, na ausência de objetos externos, eles não provocam sensação, mesmo tendo em si o fogo, a água e os outros elementos dos quais há sensação? Isso ocorre porque a faculdade sensitiva (to aisthetikon) não é em ato, mas apenas em potência (dynamei monon). Por isso ela não sente sensação, assim como o combustível não queima por si só, sem um princípio de combustão; do contrário consumiria a si mesmo e não precisaria de fogo existente em ato (entelecheiai ontos)". Nós estamos tão acostumados a representar a sensibilidade como uma faculdade da alma, que esse fragmento do De anima (417a 2-9) não nos parece colocar problemas. O vocabulário da potência penetrou tão profundamente em nós que não nos damos conta de que, naquelas linhas, aparece pela primeira vez um problema fundamental que, como tal, vem à luz, na história do pensamento ocidental, apenas em alguns momentos decisivos (um desses momentos, no pensamento moderno, é a obra de Kant). Esse problema - que é o problema original da potência - enuncia-se na pergunta: "o que significa possuir uma faculdade? De que forma algo como uma 'faculdade' existe?" A Grécia arcaica não concebia a sensibilidade, a inteligência (ou, menos ainda, a vontade) como "faculdades" de um sujeito. A própria palavra aisthesis é, na sua forma, um nome de ação em -sis, que expressa uma atividade real. Como pode existir, portanto, uma sensação na ausência de sensação, uma aisthesis no estado de anestesia? Essas perguntas nos introduzem imediatamente no problema daquilo que Aristóteles chama dynamis, potência (um termo - será bom lembrar - cujo significado é tanto o de potência quanto o de possibilidade, sendo que esses dois significados não deveriam jamais ser dissociados, como infelizmente acontece nas tradições modernas). Quando dizemos que um homem tem a "faculdade" de ver, a "faculdade" de falar (ou, como Hegel escreve e Heidegger repetirá a seu modo, a "faculdade" da morte), quando afirmamos simplesmente "isso não está dentro das minhas faculdades", já nos movemos na esfera da potência. Ou seja, o termo "faculdade" exprime o modo em que uma certa atividade é separada de si mesma e destinada a um sujeito, o modo em que um ser vivo "tem" a sua práxis vital. Algo como uma "faculdade" de sentir é distinta do sentir em ato, a fim de que isso possa ser referido propriamente a um sujeito. Nesse sentido, a doutrina aristotélica da potência contém uma arqueologia da subjetividade, é a forma com a qual o problema do sujeito se anuncia a um pensamento que ainda não tem essa noção. Exis (de echo, ter), hábito, faculdade é o nome que Aristóteles dá a essa in-existência da sensação (e das outras "faculdades") em um ser vivo. Aquilo que é assim "tido" não é uma simples ausência, mas tem na realidade a forma de uma privação (no vocabulário de Aristóteles, steresis, privação, está estrategicamente relacionada com exis), ou seja, de algo que atesta a presença daquilo que falta no ato. Ter uma potência, ter uma faculdade significa: ter uma privação. Por isso a sensação não sente a si mesma, como o combustível não queima a si mesmo. A potência é, portanto, a exis de uma steresis: "às vezes", lê-se em Met. 1019 b, 5-8, "o potente é tal porque tem algo, às vezes porque lhe falta algo. Se a privação é de uma certa forma uma exis, o potente é tal ou porque tem uma certa exis, ou porque tem a steresis dela".

TER UMA PRIVAÇÃO
Que interesse a Aristóteles essa segunda forma da potência (ter uma privação) é evidente na passagem do De anima que segue aquela da qual pegamos a deixa. Aristóteles distingue aqui (417 a 21 sq.) uma potência genérica - que é aquela segundo a qual dizemos que uma criança tem a potência da ciência, ou que é um arquiteto ou chefe de Estado em potência - da potência que compete a quem já tem a exis correspondente àquele certo saber ou àquela certa habilidade. É nesse segundo sentido que se diz que o arquiteto tem a potência de construir mesmo quando não está construindo, ou que o tocador de cítara tem a potência de tocar mesmo quando não toca. A potência que está em questão aqui difere essencialmente da potência genérica que compete à criança. A criança, escreve Aristóteles, é potente no sentido de que deverá sofrer uma alteração por meio do aprendizado; aquele que já possui uma técnica, ao contrário, não deve sofrer uma alteração, mas é potente a partir de uma exis, que pode não colocar em ato ou atuar, passando de um não ser em ato a um ser em ato (ek tou... me energein eis to energein - 417b, 1). Quer dizer, a potência é definida essencialmente pela possibilidade do seu não-exercício, assim como exis significa: disponibilidade de uma privação. Ou seja, o arquiteto é potente enquanto pode não-construir, e o tocador de cítara é tal porque, diferentemente daquele que se diz potente apenas em sentido genérico e que simplesmente não pode tocar a cítara, ele pode não-tocar a cítara.
É desse modo que Aristóteles responde, na Metafísica, à tese dos Megáricos, que afirmavam, aliás, não sem boas razões, que a potência existe apenas no ato (energei mono dynastai, otan me energei ou dynastai - 1046b, 29-30). Se isso fosse verdade, objeta Aristóteles, nós não poderíamos considerar arquiteto o arquiteto mesmo quando não constrói, nem chamar o médico de médico no momento em que ele não está exercitando a sua arte. Isto é, está em questão o modo de ser da potência, que existe na forma da exis, da soberania sobre uma privação. Há uma forma, uma presença daquilo que não é em ato, e essa presença privativa é a potência. Como Aristóteles afirma sem reservas numa passagem extraordinária da sua Física: "a steresis, a privação, é como uma forma (eidos ti, uma espécie de rosto: eidos de edenai, ver)" (193b 19-20).
DO ESCURO
Uma das figuras mais significativas dessa presença privativa da potência é, no De anima, o escuro (skotos). Aristóteles trata aqui da sensação e, particularmente, da visão (418a, 26 - 418b, 31). Objeto da vista, ele escreve, é a cor e mais alguma outra coisa para a qual não temos um nome, mas que ele sugere chamar de o diáfano (diaphanes). O termo aqui não se refere simplesmente aos corpos transparentes, como o ar ou a água, mas a uma certa "natureza" (physis) presente neles e que constitui aquilo que é propriamente visível em todos os corpos. Aristóteles não define essa natureza, mas se limita a postular sua existência (esti ti diaphanes, há o diáfano); ele afirma, porém, que o ato dessa natureza como tal é a luz e que as trevas são a sua potência (418b, 9-10). E se a luz é, como ele acrescenta logo depois, a cor do diáfano em ato (chroma... tou diaphanous otan ei entelecheiai diaphanes), então não seria errado definir o escuro, que é a steresis da luz, como a cor da potência. De qualquer forma, é apenas uma e a mesma natureza que se apresenta ora como as trevas e ora como luz (e gar aute physis ote men skotos ote de phos estin - 418b, 31). (O lugar comum que sustenta que a metafísica antiga seja uma metafísica da luz não é, portanto, correto. Trata-se, na verdade, de uma metafísica do diáfano, dessa physis anônima capaz tanto das trevas quanto da luz). Algumas páginas depois, fa-lando do senso comum, Aristóteles se pergunta como se dá o fato de, enquanto vemos, sentimos que vemos (aisthanometha oti oromen) ou, enquanto ouvimos, sentimos que ouvimos. No que concerne à vista, isso pode acontecer ou porque sentimos ver com um outro sentido ou com a própria vista. A resposta de Aristóteles é a de que nós sentimos ver com o mesmo sentido com o qual vemos. Isso implica, porém, uma aporia: "dado que sentir com a vista significa ver, e aquilo que se vê é a cor mais aquilo que a cor tem, então, se aquilo que vemos é aqui o próprio vidente, é preciso que o princípio do ver (to oron proton) seja, por sua vez, colorido. É claro, portanto, que 'sentir com a vista' tem mais de um significado, já que mesmo quando não vemos, distinguimos com a vista as trevas da luz. Portanto, o princípio da visão é de algum modo colorido" (425b 17-25).
Nessa passagem extraordinária, na qual o problema da potência mostra a sua relação essencial com o da auto-afecção, Aristóteles retoma e desenvolve a pergunta inicial: "por que, na ausência de objetos externos, não há sensação dos próprios sentidos?", à qual tinha respondido afirmando que isso ocorre porque a sensação é em potência, e não em ato. As considerações seguintes permitem uma melhor compreensão do significado dessa resposta. Quando não vemos (quer dizer: quando a nossa vista permanece em potência), ainda assim nós distinguimos o escuro da luz, vemos, por assim dizer, as trevas como cor da visão em potência. O princípio da visão "é, de alguma forma, colorido", e as suas cores são o escuro e a luz, a potência e o ato, a privação e a presença. Isso significa que sentir ver é possível porque o princípio da visão existe tanto como potência de ver quanto como potência de não-ver, e esta última não é uma simples ausência, mas algo existente, a exis de uma privação. A neurofisiologia moderna parece, neste ponto, estar de acordo com Aristóteles. Quando, pela ausência de fontes luminosas ou porque estamos com os olhos fechados, não vemos objetos externos, isso não significa para a retina a ausência de todas as atividades. O que acontece, ao contrário, é que a falta de luz coloca em função uma série de células periféricas chamadas off-cells, que produzem aquela auto-afecção particular da retina que nós chamamos de escuro. A escuridão é realmente a cor da potência, e a potência é essencialmente a disponibilidade de uma steresis, potência de não-ver.
POTÊNCIA PARA AS TREVAS
Em seu comentário ao De anima, Temístio nota com singular perspicácia todas as implicações dessa passagem. "Se a sensação não tivesse uma potência tanto para o ato como para o não-ser-em-ato, se ela fosse sempre e somente em ato, ela não poderia jamais distinguir o escuro (skotos) nem ouvir o silêncio; da mesma forma, se o pensamento (nous) não fosse capaz tanto do pensamento quanto do não-pensamento (anoia), não poderia jamais conhecer o sem-forma (amorphon), o mal, o sem-figura (aneideon)... Se o pensamento não tivesse algo em comum com a potência, não conheceria a privação (steresis)". A grandeza - mas também a miséria - da potência humana está no fato de ela ser, também e sobretudo, potência de não passar ao ato, potência para as trevas. Se se considera que skotos, no grego homérico, é antes de tudo as trevas que invadem o homem no momento da morte, é possível medir todas as conseqüências dessa vocação anfíbia da potência. A dimensão que ela destina ao homem é o conhecimento da privação, ou seja, nada menos que a mística como fundamento secreto de todo o seu saber e de todo o seu agir (a idéia medieval de um Aristoteles mysticus mostra, aqui, a sua pertinência). Se a potência fosse, de fato, apenas potência de ver ou fazer, se ela existisse como tal apenas no ato que a realiza (e uma potência assim é aquela que Aristóteles chama de natural e destina aos elementos e aos animais alógicos), então nunca poderíamos ter a experiência do escuro e da anestesia, nunca poderíamos conhecer e, portanto, dominar a steresis. O homem é o senhor da privação porque mais que qualquer outro ser vivo ele está, no seu ser, destinado à potência. Mas isso significa que ele está, também, destinado e abandonado a ela, no sentido de que todo o seu poder de agir é constitutivamente um poder de não-agir e todo o seu conhecer; um poder de não-conhecer.
TODA POTÊNCIA É IMPOTÊNCIA
É no livro theta da Metafísica que Aristóteles procurou confrontar-se exaustivamente com as ambigüidades e as aporias da sua teoria da potência. O momento talvez decisivo desse confronto está nas passagens em que ele define o co-pertencer constitutivo da potência e da impotência. "A impotência (adynamia)", ele escreve (1046a 29-32), "é uma privação contrária à potência (dynamis). Toda potência é impotência do mesmo e em relação ao mesmo (do qual é potência) (tou autou kai kata to auto pasa dynamis adynamia)". Adynamia, impotência não significa aqui ausência de toda potência, mas potência de não (-passar ao ato), dynamis me energein. A tese define, assim, a ambivalência específica de toda potência humana, que, na sua estrutura originária, se mantém relacionada com a própria privação, é sempre - e em relação à mesma coisa - potência de ser e de não ser, de fazer e de não fazer. É essa relação que constitui, para Aristóteles, a essência da potência. O ser vivo, que existe no modo da potência, pode a própria impotência, e apenas dessa forma possui a própria potência. Ele pode ser e fazer porque se mantém relacionado ao próprio não ser e não-fazer. Na potência, a sensação é constitutivamente anestesia, o pensamento não-pensamento, a obra inoperosidade. Poucas linhas depois, Aristóteles precisa ainda mais esse estatuto anfibólico da potência humana: "Aquilo que é potente (dynatos) pode (endechetai) não ser em ato (me energein). Aquilo que é potente de ser pode tanto ser quanto não ser. O mesmo é, de fato, potente de ser e de não ser (to auto ara dynaton kai einai kai me einai)" (1050b 10-). Dechomai significa "acolho, recebo, admito". Potente é aquilo que acolhe e deixa acontecer o não ser e esse acolher do não ser define a potência como passividade e paixão fundamental. E é nesse dúplice caráter da potência que, como é evidente no próprio termo com o qual Aristóteles expressa o contingente (to endechomenon), radica-se o problema da contingência, da possibilidade de não ser. Se lembramos que, na Metafísica, os exemplos da potência-de-não são quase sempre retirados do âmbito das técnicas e dos saberes humanos (a gramática, a música, a arquitetura, a medicina etc.), podemos então dizer que o homem é o ser vivo que existe em modo eminente na dimensão da potência, do poder e do poder-não. Toda potência humana é, cooriginariamente, impotência; todo poder-ser ou -fazer está constitutivamente relacionado, para o homem, com a própria privação. E essa é a origem da incomensurabilidade da potência humana, muito mais violenta e eficaz que aquela dos outros seres vivos. Os outros seres vivos podem apenas a potência específica deles, podem apenas este ou aquele comportamento inscrito na vocação biológica deles; o homem é o animal que pode a própria impotência. A grandeza da sua potência é medida pelo abismo da sua impotência.
POTÊNCIA, NÃO LIBERDADE
Poder-se-ia sentir a tentação de reconhecer nessa doutrina da natureza anfibólica de toda potência o lugar no qual o problema moderno da liberdade poderia encontrar o seu fundamento. Isso ocorre porque a liberdade como problema nasce justamente do fato de que todo poder é também, imediatamente, um poder-não, toda potência também uma impotência. Autenticamente livre, nesse sentido, seria não quem pode simplesmente realizar esse ou aquele ato, nem simplesmente quem pode não realizá-lo, mas aquele que, mantendo-se relacionado com a privação, pode a própria impotência. Como, então, Aristóteles, além de não mencionar nunca nesse contexto o termo "liberdade", também não evoca de nenhuma forma o problema da vontade e da decisão? É evidente, como Schlomo Pines mostrou com clareza, que para um grego o conceito de liberdade define um status e uma condição social e não, como para os modernos, algo que possa se referir à experiência e à vontade de um sujeito. Mas decisivo é o fato de que, para Aristóteles, a potência, enquanto se determina como exis de uma privação, como potência de não-fazer e de não-ser, não pode ser destinada a um sujeito como um direito ou como uma propriedade. No dicionário filosófico contido no livro delta da Metafísica (1022b, 7-10), lê-se que se a exis é uma relação entre aquele que tem e aquilo que é tido, então "é impossível ter uma exis (echein exin; exis, habitus é o deverbal de "ter"), já que se chegaria ao infinito, se fosse possível ter o hábito daquilo que se tem". Que a exis de uma potência não possa ser, por sua vez, possuída, isso significa a impossibilidade de um sujeito no sentido moderno, isto é, de uma consciência auto-reflexiva como centro de imputação das faculdades e dos hábitos. Mas isso significa também que o problema da potência não tem, para um grego - e provavelmente com razão -, nada a ver com o problema da liberdade de um sujeito.
NADA HAVERÁ DE IMPOTENTE
Chegou o momento de questionar mais de perto a relação entre potência e impotência, entre poder e poder-não. Como pode, de fato, uma potência passar ao ato, se toda potência já é sempre potência de não passar ao ato? E como podemos pensar o ato da potência-de-não? O ato da potência de tocar piano é certamente, para o pianista, a execução de um trecho no piano; mas qual será, para ele, o ato da sua potência de não tocar? E o que acontece com essa potência de não tocar no momento em que ele começa a tocar? Assim, o ato da potência de pensar será pensar este ou aquele pensamento; mas como pensar o ato da potência de não-pensar? Será que as duas potências são tão assimétricas e heterogêneas que essas perguntas simplesmente não têm sentido? E, no entanto, se nas palavras de Aristóteles, "toda potência é impotência do mesmo e em relação ao mesmo", o problema do destino da impotência na passagem ao ato não pode simplesmente ser deixado de lado. A resposta que Aristóteles dá a essas perguntas constitui, mesmo na sua drástica brevidade, um dos resultados mais extraordinários do seu gênio filosófico; e, todavia, não foi ouvida na tradição da filosofia: Esti de dynaton touto, hoi ean yparxei he energeia hou legetai echein ten dynamin, ouden estai adynaton. (Met. 1047a, p. 24-25). É potente aquilo para o qual, se ocorre o ato do qual é dito haver a potência, nada haverá de impotente. A leitura comum entende essa frase como se Aristóteles quisesse dizer: é possível, isto em relação a que não há nada de impossível. Já Heidegger, no seu curso sobre o livro theta da Metafísica, tinha ironizado sobre a "vácua sutileza" dos intérpretes que, com um "sentimento de triunfo mal dissimulado", atribuem a Aristóteles uma semelhante tautologia. A impotência, da qual se diz que no momento do ato não será nada, não pode ser, na verdade, senão aquela adynamia que, segundo Aristóteles, pertence a toda dynamis: a potência de não (ser ou fazer). A tradução correta é, portanto: "é potente aquilo para o qual, se ocorre o ato do qual é dito haver a potência, nada haverá de potente não (ser ou fazer)". Mas como entender, então: "nada haverá de potente não -"? Como a potência pode neutralizar a impotência que lhe co-pertence? Uma passagem do De Interpretatione fornece algumas indicações preciosas. Em relação às negações dos enunciados modais, Aristóteles distingue, e ao mesmo tempo relaciona, o problema da potência e o da enunciação modal. Enquanto a negação de um enunciado modal deve negar o modo e não o dictum (por isso a negação de "possível que seja" é "não possível que seja" e a negação de "possível que não seja" é "não possível que não seja"), no plano da potência as coisas não são diferentes e negação e afirmação não se excluem. "Já que aquilo que é potente não é sempre em ato", escreve Aristóteles, "a negação também lhe pertence: de fato, pode até não caminhar aquilo que é capaz de caminhar, e pode não ver aquilo que pode ver" (21b, 14-16). Por isso, no livro theta e no De anima, a negação da potência (ou melhor, a sua privação) tem, como vimos, sempre a forma: "pode não" (e nunca a forma: "não pode"). "Por isso parece que as expressões 'possível que seja' e 'possível que não seja' sucedem uma à outra, já que a mesma coisa pode ser e não ser. As enunciações desse gênero não são, portanto, contraditórias. Por outro lado, 'possível que seja' e 'não possível que seja' nunca estão juntas" (21b, 35-22a, 2). Se chamamos de privação o estatuto da negação na potência, como entender em modo privativo a dupla negação contida na frase: "nada haverá de potente não (ser ou fazer)"? Enquanto não contraditória em relação à potência de ser, a potência de não ser não deve aqui se anular simplesmente, mas, voltando-se para si mesma, deverá assumir a forma de um poder não-não ser. A negação privativa de "potente não ser" é "potente não-não ser" (e não "não potente de não ser"). Aquilo que Aristóteles diz na passagem em questão é, portanto, algo muito diferente e mais interessante do que aquilo que a leitura tautológica dos comentadores modernos lhe faz dizer. Se uma potência de não ser pertence originalmente a toda potência, será verdadeiramente potente apenas quem, no momento da passagem ao ato, não anulará simplesmente a própria potência de não, nem a deixará para trás em relação ao ato, mas fará com que ela passe integralmente nele como tal, isto é, poderá não-não passar ao ato".







DOAÇÃO E SALVAÇÃO
Podemos agora responder às perguntas que tínhamos feito: o que acontece com a potência de não, no momento em que o ato se realiza? Como pensar o ato de uma potência de não - ? A interpretação que propomos obriga-nos a pensar, de uma forma nova e não banal, a relação entre potência e ato. A passagem ao ato não anula nem exaure a potência, mas esta se conserva no ato como tal e marcadamente na sua forma eminente de potência de não (ser ou fazer). É o que Aristóteles diz com clareza numa passagem do De anima (417b, 2-16), da qual podemos agora compreender todas as implicações decisivas.
"Padecer (paschein) não é um termo simples, mas, em um certo sentido, significa uma certa destruição por obra do contrário, em um outro, significa na verdade a conservação (soteria) daquilo que é em potência naquilo que é em ato e se parece com ele, da mesma forma que a potência (se conserva) em relação ao ato. De fato, aquele que possui a ciência torna-se contemplante em ato (theoroun) e isso não é uma alteração (alloiusthai, tornar-se outro), visto que há doação para si mesmo (epidosis eis eauto) e para o ato". A potência (a única potência que interessa a Aristóteles, aquela que parte de uma exis) não passa ao ato sofrendo uma destruição ou uma alteração; o seu paschein, a sua passividade consiste, na verdade, em uma conservação e em um aperfeiçoamento de si (epidosis, literalmente "doação acrescida", significa também "acréscimo": Willem van Moerbeke traduz in ipsum id additio, e Temístio glosa teleiosis, cumprimento). Nós devemos ainda medir todas as conseqüências dessa figura da potência que, doando-se a si mesma, se salva e cresce no ato. Ela obriga-nos a repensar do zero não apenas a relação entre a potência e o ato, entre o possível e o real, mas também a considerar de uma forma nova, na estética, o estatuto do ato de criação e da obra, e na política, o problema da conservação do poder constituinte no poder constituído. Mas é toda a compreensão do ser vivo que deve ser revogada em questão, se é verdade que a vida deve ser pensada como uma potência que excede incessantemente as suas formas e as suas realizações. Talvez apenas sob essa perspectiva podemos enfim entender a natureza do pensamento, se é verdade, como Aristóteles não se cansa de repetir, que é a potência que define a sua essência. Como ele escreve numa passagem ampliada do De anima (429b, 6-10): Quando (o pensamento) tornou-se cada coisa, no sentido em que aquele que sabe é dito tal em ato (e isso acontece quando pode passar ao ato por si), então de alguma forma ele permanece também em potência... e pode portanto pensar a si mesmo. Aquilo que a tradição filosófica habituou-nos a considerar como o vértice do pensamento e, ao mesmo tempo, como o próprio cânone da energeia e do ato puro - o pensamento do pensamento - é, na verdade, a doação extrema da potência a si mesma, a figura completa da potência do pensamento.